quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Negócios, Negócios..

Estava lendo o jornal hoje qndo me deparei com esse texto; muito interessante. Tem uma relação muito grande com a minha postagem anterior. Pelo menos o que eu ando sentindo faz algum sentido (ficou estranha essa frase, mas não é nenhum trocadilho não..hehe..) :
Dulce Critelli
Vivemos sob a pressão do desempenho e de ações previamente definidas
Uma questão de negócios?


O que me entristeceu na maneira fria e técnica com que o recente processo político eleitoral foi tratado foi que, nele, se reproduziu o que acontece com cada um de nós na vida comum e diária. Tudo não passa de uma questão de negócios. Já há algum tempo os negócios deixaram de ser um tema exclusivo das empresas e dos governos. Eles se tornaram nosso modo de vida cotidiano. Tudo o que pensamos, queremos, necessitamos, acreditamos e fazemos é moldado e arrumado dentro do esquema dos negócios. Casar, nos divertir, escolher o que estudar, que profissão seguir, rezar, fazer planos para o futuro, cuidar da sobrevivência, da velhice e da morte são coisas que só podem acontecer se nos adequarmos ao sistema dos negócios. Até mesmo a caridade, que poderia ser o contrário, se não se submeter a tal sistema não poderia ser praticada.O problema decorrente dessa situação não está propriamente nos negócios, mas no fato de ele ter se tornado a única maneira disponível para se lidar com a existência. É a parte tomando o lugar do todo. Uma questão de proporções. É a complexidade da existência limitada ao simples esquema de operações dos negócios.O esquema dos negócios é um jogo. Pressupõe metas, meios e estratégias para atingí-las, normas a serem cumpridas pelos jogadores, certos princípios (por exemplo: não roubar). A tática fundamental do jogo é a competição. O resultado é a vitória, o atingimento da meta prevista. O que motiva os jogadores é o prêmio que se ganha com a vitória: dinheiro, prestígio, fama... De modo geral, sempre algo tangível, externo, visível a todos, impessoal.Como se negocia é hoje como se vive. Competência, controle, liderança, influência, auto-confiança, entre outros, eram comportamentos e atitudes exigidas aos "homens de negócio", em "situações de negócio". Hoje, são esperados dos cidadãos comuns, nas situações mais comuns da vida familiar e social. Vivemos sob a pressão do desempenho e de ações previamente definidas. Conseqüentemente, sob a pressão de uma avaliação desse desempenho, que pode ser feita por qualquer um, e pela incumbência de vencer.Mas, só ganham o jogo os mais competentes e adaptados para se conduzir de acordo com suas regras. Nunca quem pensa haver outros meios para se chegar aos mesmos fins. Ou quem tenha outros fins. Nunca os mais virtuosos. De alguma maneira, as cartas já estão marcadas. Não é à toa que há tantas pessoas com sintomas crônicos de cansaço, estresse, baixa auto-estima, depressão e sentimento de inadequação. Elas não têm aptidão para esse tipo de jogo. Não é à toa que a violência cresce tanto, pois ela tem se mostrado o meio mais garantido de virar o jogo. E não é à toa que as empresas têm dificuldade em motivar empregados. O que todas as pessoas querem, porque são criaturas humanas, é o que está para além da limitação do seu papel de jogadores. Querem o reconhecimento de sua existência singular tal como elas são e não como elas têm que ser. Querem arriscar, experimentar, inovar. Poder contribui com suas próprias qualidades e o testemunho de seus virtuosismos. Não querem ser aplainadas e empobrecidas pelo previsível esquema dos negócios. Por trás do jogador há uma pessoa. Se seqüestrada de sua singularidade, ela murcha. Não se envolve, não colabora, não assume, não tem motivos...Nascemos como indivíduos únicos, exclusivos. Não somos coisas ou puros objetos. É nossa singularidade de ser e lidar com a vida que queremos reconhecida, testemunhada. Essa é a base de todo nosso existir e agir. Sem o reconhecimento dos outros, sem a compreensão do significado do que sou e faço, sem a percepção da minha contribuição para o mundo e para os outros, não há razão nem motivos para coisa alguma. Uma saída? Talvez muitas. Entre elas, revalorizar o humano sob o papel do jogador. E deixarmos a existência recuperar sua amplitude e diversidade.


DULCE CRITELLI, professora de filosofia da PUC-SP, é autora dos livros "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Existentia - Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana; @> dulcecritelli@existentia.com.br

2 comentários:

Carrie Bradshaw Tupiniquim da Silva disse...

Alê, não te lembra "admirável mundo novo"? Chegamos a esse ponto quase... somos selvagens! rss
bem, é isso que me irrita todos os dias, perder uma vaga de emprego pq eu não tenho o tal perfil e todas as minhas qualidades não são nunca vistas...
desculpa o desabafo!
beijo!

Cristina disse...

Lendo esse texto eu pensei em Durkheim (...), mas pelo visto a "tia" é marxista.
(nada a ver esse comentário, hehe)
beijinhos, Alex!