quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

um dia no inferno

Eu tinha uma missão: comprar dois ingressos pro show do Coldplay. Na prática, tinha apenas um dia pra fazer isso. Pois, como era previsível, os ingressos esgotaram em 48 horas ou pouco mais.

Segunda-feira (passada), eu saio do meu trabalho às 17:00h. E o que acontece? Desaba um temporal. Bom, tudo bem, faz parte da vida. Dou um tempo, passo no banco (pra zerar meu saldo, vocês devem imaginar o preço do ingresso), e aproveito pra comer alguma coisa num McDonalds ali perto. A chuva não passa, óbvio. Dei uns 15 minutos e encarei o aguaceiro.
Voltei pra Avenida Paulista e depois de um interrogatório com vários transeuntes perguntando sobre "como eu faço pra chegar na Vila Olímpia?" (sem obter resposta) resolvi pegar o busão. Entrei no famigerado "Circular Aclimação", também conhecido por "o amarelinho que sobe a Av. Angélica". A chuva vai aumentando. E o busão anda meio metro, pára, anda mais meio metro, e pára. Isso porque meu objetivo era apenas chegar até o cruzamento com a Brigadeiro Luis Antonio pra pegar o "cocozão", o temido "Terminal Santo Amaro".
Quando o busão havia andado dois quarteirões e tentava mudar de faixa pra chegar num ponto: splack!! (onomatopéia "estyle"). O nosso querido motorista arrancou o espelho retrovisor de outro busão. E lá vai ele descer pra pegar os dados do rapaz pra que depois descontem no seu mirrado salário a cagada. Nisso já se vão uns 15 minutos parado na Av. Paulista ajudando a complicar ainda mais o trânsito.
Enfim, tudo foi resolvido e eu consegui chegar na Brigadeiro. Nisso já se passavam uns 50 minutos que eu tinha saído do meu trabalho e não estava ainda nem na metade do percurso. Meu prazo final: 22 horas.
Desço um pouco a Brigadeiro (ainda num pé d´água) e chego até um ponto de ônibus. Não se vão nem alguns segundos e já avisto aquela jeringonça biarticulada do Terminal Santo Amaro. Era a carroagem para o inferno, lotada. Fecho o guarda-chuva, subo, e fico pendurado na porta massarocado no melhor estilo "eu moro na COHAB, e daí?". Naquele ponto eu olhei pra mim mesmo no reflexo do vidro e afirmei: fudeu.
Como o ônibus era biarticulado, o sufoco passou rápido e consegui achar meu espaço mais lá atrás, em pé, lógico. Porém, as coisas não ficaram menos estressantes, isso porque depois de uns 50 metros a avenida toda parou. E começou uma agonizante e torturante espera debaixo de chuva (lá fora), fedendo (e sentindo o fedor dos outros), com o sapato furado e encharcado.
Depois de uma meia-hora nessa situação, eu tive um "insight" de raiva súbita e baixou o Michael Douglas em mim, na sua célebre atuação em "Um Dia de Fúria". Dei um grito babuínico lá de trás pro cobrador avisando que eu queria descer de qualquer jeito e continuar a pé. Eles me entenderam.
Segui a pé, debaixo de uma chuva ainda mais forte (era o auge), com o sapato furado e encharcado, e com mais uma novidade: o guarda-chuva começou a "esfarelar". Eu nunca tinha visto isso na minha vida. A água da chuva começou a penetrar pelo pano (ou vinil, não sei bem do que são feito essas coisas). Mas nessa altura eu já tinha atingido um "nirvana" de estresse e nem estava mais ligado pra porcaria nenhuma.
Em suma, andei a pé uns 3 ou 4 quilometros (é sério), como um beduíno no deserto procurando por um oásis, e finalmente cheguei. Nisso já era umas 19:20h, e ainda chovendo. Aí teve a fase 2 do martírio, que durou mais umas 3 horas. Isso tudo com uns malas atrás de mim na fila falando pelos cotovelos e dando gargalhadas (só paulistano mesmo pra dar gargalhada em fila). Pelo menos na minha frente tinha uma bela e elegante "coldgirl" morena de olhos verdes, vestida como uma aeromoça. Fiquei curioso pra saber se ela era mesmo uma aeromoça, mas não me arrisquei a perguntar, apesar de ter batido um papo rápido com ela. Eu: "o que a gente não faz por um ingresso né?", e ela: "Pois é..."
O maior medo era passar das 22 horas (quando oficialmente fecham as bilheterias) e o pessoal do Via Funchal dispensar a galera. Mas eles foram respeitosos e esticaram até as 24 horas. Eu saí de lá as 22:30h com os ingressos em mãos, graças as forças cósmicas (!). Não eram os que eu queria (os mais baratos, esses evaporaram), mas não tinha outra saída. De última hora apelei mais uma vez pro meu saldo bancário e mandei ver. Nem que isso custasse o resto do mês em bolacha de sal.
Bom, existe aquela velha frase clichê: "eu tive uma visão do inferno". Depois dessa segunda, eu posso afirmar categoricamente com todas as letras: eu vi o capeta.

7 comentários:

Cristina disse...

Cruz credo... fiquei com medo agora, espero que você não queira descontar depois minha parcela de responsabilidade nisso tudo...

Vejamos: primeiro - pense que você pagou todos os seus pecados do ano e de alguns anos anteriores tbém.
segundo - vamos fazer isso ter valido a pena, certo?

;] beijo!

Alexandre disse...

crisuda, apesar de toda essa minha ira.. é lógico que estou feliz.. afinal, tô com o ingresso que muita gente queria ter em mãos.. hehehehe.. e vc não tem parcela de culpa nenhuma nisso, pode parar. ;)

Bruna_ disse...

O.o

posso te deixar mais feliz?
tem um ônibus que sai da 9 de Julho deixa você quase na porta do Funchal.. hehe e como é corredor de ônibus, um bom pedaço.. teria sido mais agradável...
Bem, de certo nada é por acaso.. vai que você encontra a moça do "pois é" mais amigável para um papinho.. ela também deveria estar estressada.. rs

Besitos

Thiago Ocampo disse...

me diverti mto lendo sua saga! ahahahahah... verdade sobre esse ônibus da 9 de Julho. eu sempre pegava ele... bom, o q tem q ser...
a melhor parte é o seu "papo" com a aspirante a aeromoça. se encontrar com ela no show vê se desenvolve um assunto melhorzinho, vai... ahahahahahah!
[]´s

dani! disse...

kkkkkkk
Te juro que nunca pensei q você fosse capaz de fica assim estressadão!

Carol disse...

Amei o termo "carruagem para o inferno"! rs
Q stress! Mas só pra ouvir os caras tocando "in my place, in my place, la ri la ri la lá" vale tudo.
Beijos

Menina Enciclopédia disse...

lembrei do episódio do metrô em Seinfeld rs a Elaine fica louca dentro do vagão rss
ônibus pro via funchal é uma merda de achar... qdo fui assistir o Green Day, em 1900 e bolinha, eu e uma amiga andamos muito pra achar o lugar e pensávamos até q tinhamos perdido o show de tão perdidas q ficamos pelo itam rsss