domingo, 14 de janeiro de 2007

o advogado etéreo

Essa semana passada eu fiz a minha primeira petição "etérea". E nem adianta tentar explicar do que se trata porque seria impossível. Mas quem enxerga no sol mais do que uma simples bola de gás pegando fogo no espaço irá me entender, tenho certeza.
Como em toda petição etérea, a causa não era das mais simples. Qualquer advogado de bom senso e com pragmatismo no coração diria que é uma causa perdida. Causas com valores inestimáveis são causas perdidas, diriam eles.
Bom, eu fiz, e protocolei. Em que pese o cliente ser eu mesmo, o que torna tudo mais difícil, acho que fundamentei bem o "libelo" e lancei os argumentos de uma forma coerente e relativamente bem centrada. Pelo menos não corro o risco de levar um despacho fulminante por inépcia (falta de pressupostos de validade), o que já é algo relevante num pedido desse naipe, tudo estava no seu devido lugar.
No que tange ao pedido em si, a coisa é diferente. Na verdade não faço a mínima idéia do que o juiz irá decidir, e nem se ele irá decidir (por incrível que pareça, nesse tipo de caso o juiz não é obrigado a decidir nada; o mínimo que ele precisa fazer é dar um despacho de ciência, o que já foi feito). De qualquer maneira, eu testei mais uma vez a minha capacidade desengonçada mas ao mesmo tempo sincera de demonstrar meus sentimentos.
Eu na verdade prometi a mim mesmo que não voltaria a me expor assim, das outras vezes que tomei atitude semelhante no final eu dei com os burros n´água (como era previsível). Mas eu tenho um problema sério com um lado pretensamente romântico desvairado da minha alma que parece ser incorrigível. A sapiência diz também que advogados não podem ser românticos, advogado romântico não funciona, a carteirinha da OAB vira um enfeite (isso eu sinto realmente na pele).
Enfim, em que pese o bom trabalho da petição, eu esqueci de me preparar para a sustentação oral ("que raio de advogado é esse?" diriam alguns). Tive mais de 4 horas ininterruptas (isso sim é que é prazo!) para transformar em voz todos aqueles argumentos mas fiquei a maior parte do tempo em silêncio, sorrindo abobalhadamente pra outra parte (se não tivesse advogando em causa própria, já teria sido destituído do feito).
Hoje eu acordei e fiquei pensando sobre o quanto vale a pena abraçar causas "etéreas". Por mais que meio mundo tente me convencer do contrário (realmente não são poucos), eu ainda sou maluco o suficiente pra isso.

5 comentários:

Bruna_ disse...

vale a pena sim..
o juiz certamente irá deferir ; )
ps: acho que fui contaminada por romantismo.. ainda bem que não tem cura.. rs
bjs

Carol disse...

Querido, você seria um grande escritor, bem melhor que advogado, na minha humilde e limitada opinião!

Cristina disse...

Às vezes nem vale a pena, mas a gente acredita que sim. Não sei até que ponto isso é o mais importante, porque no final, só o tempo nos dá as respostas, não é?
E qdo a expressar os próprios sentimentos, creio que eu já tive um avanço considerável nesse quesito rs. ;]

Estela disse...

ah mano faa sério..pára de querer impressionar a gente e traduz aih neh

Menina Enciclopédia disse...

vc é uma pessoa de alma boa, Alê, e isso o torna, muitas vezes, um ingênuo para os demais que não o conseguem entender - infelizmente sempre que colocamos nossas "causas" em jogo muito gente acha que estamos sonhando, somos visionários, mas o importante é que fizemos o que fizemos e nos sentimos bem com isso, e se esse é o seu caso, não se preocupe, você terá sua recompensa ;)