quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

a dignidade e a empatia

Esses dias, logo depois da saída do trabalho, fui fazer compras num supermercado do Pão de Açucar ("Compre Bem") perto da Avenida Paulista, ali no "bico do corvo" com a Consolação e a Alameda Santos. Eu não costumo comprar lá pela distância (do meu apê), pelo preço (que judia do meu bolso), e pela preguiça (normalmente prefiro ir embora direto pra casa do que ter que ficar carregando sacola no ônibus). Mas dessa vez a necessidade e a praticidade falaram mais alto.
Entrei, pesquisei, e comprei. Fui com o objetivo certo de adquirir um detergente, uma caixinha de bis branco, e 3 pães. Tudo certo. Botei tudo na cesta, e segui pra pegar o pão na padaria do mercado. Eu e meu mp3 no último volume.
Pouco antes de eu chegar no balcão, um rapaz com um cabelo rastafari, com uma roupa simples (toda rasgada), uma senhora barba não muito higienizada, entrou na minha frente e ficou observando as guloseimas. Tudo leva a crer que era um mendigo. E ficou ali olhando, olhando, olhando. Até que a moça atendente da padaria me chamou e perguntou o que eu queria.
Nesse momento, ele percebeu que eu estava atrás dele e se virou. Eu perguntei: "você não tá na fila, não vai pedir?". Ele estalou os olhos e sorriu, respondendo: "eu não, claro que não..". Saiu de lado e deixou eu chegar no balcão. Eu pedi o pão e ele continuou olhando pra mim com uma cara de espanto. Quando eu já estava saindo, ele se virou e perguntou: "Não tem como você pagar um pão pra mim, amigo?". Procurei umas moedas, mas não achei. Saquei uma solitária nota de 1 real na carteira e falei: "tó, manda ver...".
Fui em direção ao caixa e ele se debruçou na vitrine do balcão, como se fosse comprar toda a sessão de doces da padaria. Bom, pelo menos uns 3 ou 4 pães ele tinha garantido.
Enfim, mas o que me marcou mesmo foi aquele olhar de perplexidade que ele lançou pra mim logo que eu perguntei se ele não ia comprar nada. Eu simplesmente "desarmei" o sujeito porque o tratei com dignidade. O tratei como um cidadão. E isso chocou tanto a ele como a mim. Como se dois mundos, universos totalmente diferentes colidissem. Eu lembro claramente também do olhar de algumas pessoas que estavam do meu lado e da balconista, um olhar de constrangimento como se eu tivesse feito algo despurado. Eu olhei pra elas, e pensei comigo mesmo: "o que eu fiz de errado?".
Na volta pra casa, no ônibus, eu fique pensando muito sobre isso, e em como nosso convívio social está destroçado. Como existe um mar de pessoas que simplesmente vive sem um mínimo de noção de dignidade de um lado, e um outro mar de pessoas que vive sem um pingo de noção de empatia do outro. Todas ali, na mesma cidade, nas mesmas ruas, nas mesmas calçadas. Umas cruzando com as outras e se ignorando mutuamente.
Hoje eu voltei nesse mesmo mercado, mais uma vez pra comprar pão pro meu café de fim de tarde. Na saída, três moleques de rua se aproximavam de um cliente cheio de sacolas na mão quando um "mão branca" surgiu do nada gritando e botou a meninada pra correr. Quando vi a cena lembrei daquele outro mendigo, o rasta, e de como nós conseguimos, por alguns instantes, suplantar uma das mais odiosas barreiras que o ser humano já teve capacidade de criar.
Fomos sortudos? Eu diria que sim.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

porque eu não gosto do carnaval?

Hoje eu estava pensando sobre isso, as razões. Não que eu não goste do som, do samba, e em especial dos desfiles carnavalescos. Acho um dos nossos grandes triunfos culturais, algo que só nós temos competência pra fazer. Mas existe algo ali que me incomoda.
Eu ligo a TV, e começo a zapear naqueles programas que fazem a "cobertura" dos bailes carnavalescos em clubes. O entrevistador chega, a moça sorri, ele pede pra dar uma "voltinha", e ela gira, dá uma sambadinha, e rebola: "isso aqui está uma delícia!.." (era algo assim..).
Não sei, essa época do ano, pra qualquer parte que você olhe, no noticiário, na TV, e também nas ruas, há um clima onipresente de uma "liberação" hipócrita, de uma libertinagem paradoxalmente moralista. Aquela coisa da culpa católica. De botar pra fora o "tchan" que você reprime com muito cuidado e esmero o ano todo.
Existe toda uma tradição da antigüidade, das sociedades mais básicas, de celebração da vida, fartura, que está relacionada com esse período do ano (o calendário lunar, algo assim). Tradição essa que foi apropriada pelo cristianismo e "moralizada", fazendo com que as festas relacionadas com o que chamamos de carnaval deixassem de ser uma celebração existencialista e começassem a virar válvula de escape da nossa nova "tábua" de super valores morais purificadores.
Enfim, a data virou, nos tempos atuais, um tipo de "desculpa" pra que o sujeito possa, pelo menos uma vez ao ano, ser um animal primata em sua totalidade, e esquecer o quanto ele é massacrado, pressionado, reprimido nos outros 360 dias. Algo que ele devia trazer no bojo da sua personalidade todos os dias do ano, a plenitudade dos desejos, a busca pelo equilíbrio da própria existência vira, em alguns dias, uma busca desenfreada pra "saciar" e debelar o "déficit sócio-sexual" acumulado.
Aí você se pergunta: melhor isso do que nada, não? Eu diria que, de certa forma, sim. Mas também diria que o melhor seria se pudessemos ser, no íntimo dos nossos sentimentos, um pouco "carnavalescos" cada dia do ano. E deixassemos de lado aquele véu hipócrita tão bem estampado no sorriso amarelo do apresentador de TV diante do requebrado desconcertantemente estéril da bela morena.
E bota bela nisso (é lógico que eu não mudei de canal).

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

o diálogo

issis diz: olw
issis acabou de pedir a sua atenção!
[Alexandre] diz: olá..
issis diz: ke tal?
issis diz: kuando vienes?
issis acabou de pedir a sua atenção!
[Alexandre] diz: peraí, quem é vc? rs
issis diz: ke?
[Alexandre] diz: quem é vc..
[Alexandre] diz: eu nao te conheço..
issis diz: komo ke no?
[Alexandre] diz: eu nao tô lembrando. rs
issis diz: alejandro varela mahia no?
[Alexandre] diz: no, alexandre vasconcelos mello...
issis diz: entonces komo es ke tienes mi d eccion?
[Alexandre] diz: vc quem me adicionou...
issis diz: eu?
issis diz: nao
issis diz: creo vamos....
issis diz: bueno es igual
issis diz: estas en la pegina sexy o no?
issis diz: de donde eres?
issis diz: supongo ke de portugal o brasil
issis diz: pero donde vives?
[Alexandre] diz: pagina sexy? no, no... rs
[Alexandre] diz: eu moro no brasil...
issis diz: entonces no se de donde he sacado tu d eccion de verdad
issis diz: yo llevo un grupo de batukada
[Alexandre] diz: ah é?... legal.. onde vc mora?
issis diz: en barcelona
[Alexandre] diz: eu moro em são paulo.
issis diz: muito bonita
issis diz: dame 0 minutos e seguimos falando
[Alexandre] diz: ok
Diálogo "blogável" (como diz minha amiga Cris) entre eu e uma moça espanhola que me achou e me adicionou no msn, sei lá como. Ou melhor, segundo ela, estou numa "página sexy" na internet sob a alcunha de Alejandro Varela Mahia.
Só o mundo internético mesmo pra produzir pérolas como essa. E eu nem sabia que tinha um alterego "latin lover". Mas o mais difícil mesmo e intrigante foi dar "0 minutos" pra continuar o papo com ela. (?)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

stop crying your heart out


Bom, eu a vi quando cheguei no ponto da paulista/consolação pra pegar o busão, mas não tinha reparado muito. Só reparei que ela olhou pra mim. Morena, cabelo estilo black-power, olhos castanhos, um belo bocão, uma moça idêntica àquela do clipe da música "stop crying your heart out" do Oasis (foto). Passei do lado dela e segui pra beirada da calçada pra pegar o busão.
Subi, e ela subiu atrás de mim, na mesma linha. Sentei no "fundão" do busão, e ela dois bancos a frente. Chovendo, e eu com meu mp3 nos ouvidos. Ela, com uma sacola na mão.
Fique observando. De repente, já no final do trajeto, ela começou a olhar a própria imagem do rosto refletida na janela do busão e a sorrir. E sorria, e sorria, e sorria. Ficou assim por uns 10 minutos, eu acho. Eu olhei pra aquilo e achei o máximo. Na hora, lembrei dessa música do Oasis, e comecei a "escutar" ela dentro da minha cabeça (a dita não estava no setlist do meu mp3).
Não sei, isso me trouxe uma paz de espírito que jogou um "banho" de energia no meu final de noite. E percebi ali um sentimento que eu encontrei em mim mesmo logo quando cheguei aqui em São Paulo, e volta e meia observo em várias pessoas com quem cruzo diariamente. Algo de um "romantismo" pueril sobre a busca de um ideal, ou simplesmente de tentar traçar uma "linha" de autenticidade na própria vida e na procura pelo sentido da mesma. Como se ela olhasse pra si mesma e exclamasse: "poxa, sou eu.. como é bom ser eu e me sentir bem.." (?)
Descemos no mesmo ponto. Ela continuou sorrindo e seguiu pela praça Princesa Isabel, sumindo na direção da Rio Branco. Eu segui em frente e fui pra minha toca. Mas feliz.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Big Brother Qinling

Zôo chinês faz "Big Brother" na gaiola dos macacos

Seis chineses (três homens e três mulheres) vão conviver durante cinco dias e cinco noites com os macacos do zoológico de Qinling, na província chinesa de Xian, onde terão de se comportar como os animais. A informação é do jornal "Beijing News".

"Pedimos aos participantes que imitem as atitudes e hábitos dos macacos", explicou o gerente do zoológico, Ren Feixiang. O concurso começa no dia 7 de fevereiro.

Para motivar os participantes mais tímidos, a direção do zôo vai oferecer a eles apenas uma pequena parte do alimento diário. Assim, todos serão obrigados a conseguir o resto estimulando a caridade dos visitantes com suas macaquices.

O objetivo do zôo é que os participantes compreendam como se sentem os animais privados de sua liberdade e assim possam entender o "verdadeiro significado de viver", segundo o jornal.

O prêmio para o vencedor será um cheque de US$ 1.533, além de entrada de graça no zoológico para o resto do ano. Os seis participantes não terão que dormir nas árvores, já que terão de duas tendas. Provas diárias darão ao vencedor o direito a um telefonema. A partir do terceiro dia, haverá atendimento por psicólogos.

"É a primeira vez que realizamos na China um concurso com estas características", acrescentou Ren. Para ele, os homens "têm que aprender a coexistir em harmonia" com os animais e entender o que significa perder a liberdade. (Efe/ Folha Online)
Taí um Big Brother estiloso e que eu assistiria com o maior prazer. E por falar em Big Brother, é um programa que eu estou ignorando totalmente dessa vez. Só sei que tem uma loirinha "boazuda" que aparece o tempo todo cozinhando, pra variar. Voyerismo carnal, alguém aí encontra algum outro sentido interessante pra essa babaquice?

1º, 2º, 3º? façam suas apostas

Leia, abaixo, algumas das conseqüências previstas para os diferentes níveis de aumento da temperatura da Terra, conforme o Relatório Stern (documento divulgado em outubro do ano passado pelo principal economista do governo britânico, Nicholas Stern):

Elevação de 1º C na temperatura global - Encolhimento das geleiras ameaça o suprimento de água para 50 milhões de pessoas; pequeno aumento na produção de cereais nas regiões temperadas; ao menos 300 mil pessoas morrem a cada ano devido à malária, à desnutrição e a outras doenças relacionadas com as alterações climáticas; queda da taxa de mortalidade durante o inverno, nas regiões de maior latitude; morte de 80% dos recifes de coral, em especial a Grande Barreira de Corais.

Elevação de 2º C na temperatura global - Queda de 5% a 10% na produção de cereais na África tropical; 40 milhões a 60 milhões de pessoas a mais expostas à malária na África; até 10 milhões de pessoas a mais expostas a enchentes nas regiões costeiras; entre 15% e 40% das espécies de seres vivos vêem-se ameaçadas de extinção; grande risco de extinção das espécies presentes no Ártico, em especial dos ursos polares; possibilidade de que a camada de gelo da Groenlândia comece a derreter de forma irreversível, o que faria com que o nível dos oceanos se elevasse em sete metros.

Elevação de 3º C na temperatura global - No sul da Europa, períodos de seca pronunciada a cada dez anos; entre 1 bilhão e 4 bilhões de pessoas a mais enfrentando períodos de falta de água; entre 150 milhões a 550 milhões de pessoas a mais expostas à ameaça da fome; entre 1 milhão e 3 milhões de pessoas a mais morrem de desnutrição; possível início do colapso da floresta Amazônica; elevação do risco de colapso da Camada de Gelo da Antártida Ocidental; elevação do risco de colapso do sistema de circulação de águas quentes pelo Atlântico; elevação do risco de mudanças abruptas no mecanismo das monções.

Elevação de 4º C na temperatura global - Safras de produtos agrícolas diminuem entre 15% e 35% na África; até 80 milhões de pessoas a mais expostas à malária na África; desaparecimento de cerca de metade da vegetação de tundra no Ártico.

Elevação de 5º C na temperatura global - Provável desaparecimento de grandes geleiras no Himalaia, prejudicando um quarto da população da China e uma grande parte dos moradores da Índia; crescente intensificação da atividade oceânica, prejudicando seriamente os ecossistemas marinhos e, provavelmente, as populações de peixes; elevação do nível dos oceanos ameaça as pequenas ilhas, as áreas costeiras como o Estado da Flórida e grandes cidades como Nova York, Londres e Tóquio. (Estadão Online)
Bom, estão dizendo que esse Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC) realizado esse ano é o mais completo e elaborado "panorama científico" já produzido sobre alterações climáticas. Por volta de 2.000 cientistas reunidos chegando a um denominador comum, realmente é um marco.
Eu torço mesmo é pra que isso tenha o mesmo alcance que reuniões como a ECO 92 tiveram. No sentido de dirigir rumos políticos pra que a coisa realmente se transforme. É esperar para ver.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

o ambientalmente correto

"O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) deve anunciar nesta sexta-feira que as alterações no clima do mundo são “muito provavelmente” causadas pela ação humana."
Essa é uma das principais manchetes da BBC nessa quinta-feira. Eu olho, leio, e não consigo segurar uma discreta gargalhada. Já se vão mais de 30 anos que cientistas, ambientalistas, "porra-loucas", e "anti-porra loucas" discutem esse assunto e chegaram a um consenso (já faz algum tempo) de que isso não é probabilidade, é certeza.
Mas só agora, as "grandes cabeças" da política mundial, os ditos "homens sérios", estão achando que é "muito provável" que a humanidade tem algo a ver com isso (vide os recentes discursos da nata da politicagem mundial -Tony Blair à frente, agora acompanhado até do Bush-). Aliás, é cômico ver o Bush "puxando o saco" do nosso etanol depois das merdas que ele (e o resto do clã) fez (e fizeram) no oriente-médio buscando petróleo.
Bom, parece que a inteligência está chegando ao olho do furacão, antes tarde do que nunca. Aliás, eu não acredito nessa palavrinha escrota chamada "ambientalmente correto", eu acredito num negócio chamado bom senso. Hoje em dia, ser "ambientalista" é ser uma pessoa com um mínimo de cérebro e com respeito a si próprio, e a própria sobrevivência. Nada mais. Provavelmente eu deva ser um.

o politicamente correto

Hoje estava lendo uma notícia na internet relatando a proibição do ato de fumar em lugares públicos na França. Bom, eu não sou fumante, e nunca fiz apologia do cigarro, mas eu fiquei pensando sobre o bom senso desse tipo de atitude.
Segundo a notícia, 25% dos franceses fumam, é um povo "chaminé". Tudo bem, isso não justifica, mas o que justifica você cercear a liberdade das pessoas em lugares públicos? Aí você pensa: mas é cigarro, faz mal a saúde. Mas será que alguém já parou pra pensar porque realmente o cigarro faz mal a saúde? Será por causa daquela folha de fumo? Ou será por causa dos zilhões de componentes químicos que vão embutidos naquele pedaço de papel enrolado e feito sob medida pra que você se envenene?
Desde tempos imemoriais, o ato de fumar faz parte da cultura humana. E não é preciso ir longe, é só observar os nossos indíos aqui. Fumavam (e fumam) ervas as mais variadas e com os mais variados efeitos, tanto pra sentir prazer como pra criar uma simbologia cultural. Acho que poucos duvidam que a civilização indígena (pelo menos a nossa; a original, antes do contato com o "homem branco") era (e é) uma das comunidades humanas mais saudáveis que existe.
Então eu deixo a indagação: o que é realmente prejudicial a saúde, o ato de fumar ou a maneira como o sistema se "utiliza" do ato de fumar pra "sugar" nosso dinheiro, nosso espírito e nossa saúde?
Não é mais simples e de bom senso fazer uma auditoria de salubridade na produção da Philip Morris adequando as cigarrilhas ao não apodrecimento dos nossos pulmões?