domingo, 11 de março de 2007

no ponto de ônibus (pesos e medidas)

Estava eu hoje esperando o providencial "Hospital das Clínicas" para me levar para o trabalho (essa linha me salva todo dia que eu durmo além do que devia e saio atrasado) quando uma viatura da polícia militar pára em frente à Praça Princesa Isabel.
Dois PMs saem de dentro do carro, com as armas em punho, e seguem em minha direção no ponto de ônibus. Pensei: "só falta essas figuras quererem me interrogar/revistar justamente no dia que eu estou atrasado pro trabalho". Pensei também nas minhas aulas de direito penal e dos ensinamentos do nobre professor Silvio Arthur, e sobre a possibilidade de ter que transmiti-los aos caros policiais e acabar parando na delegacia por "desacato a ordem de autoridade policial".
Lá estava eu, parado, com a minha mochila nas costas e o meu MP3 no ouvido, e com aquela cara de nerdão entediado com preguiça de ir pro trampo. Do meu lado, um sujeito moreno, típico morador remediado do centrão paulistano, boné falsificado da Nike na cabeça, bermudão de mano, e uma sacola na mão.
Bom, paremos tudo aqui e congelemos a imagem. Imaginem a cena, dois PMs de frente pra mim e pro rapaz (um do lado do outro), seguindo em nossa direção. O que vocês acham que aconteceu? Sim, isso mesmo, eles abordaram o rapaz do meu lado, mandaram ele encostar na grade, e revistaram o sujeito de cabo a rabo. Identidade, "o que você tem na sacola?", "pra onde você vai?". E eu? Eles mal olharam pra minha cara.
Fiquei observando aquela cena e meu ônibus chegou, entrei e fui embora. Depois, no trajeto, aquilo tudo ficou matutanto na minha cabeça. Primeiro que, eu, como advogado, tinha uma obrigação moral e estatutária de intervir naquilo, explicar pros PMs que ninguém pode ser invadido na sua intimidade sem uma ordem expedida por juiz de direito (ou em uma situação ímpar em que tal invasão seja necessária). Segundo, que eu fiquei com um sentimento de constrangimento que me incomodou de uma forma muito peculiar. Aquela velha máxima dos "dois pesos, duas medidas" me acertou em cheio no meio da testa, como se tivesse levado uma bolada de um chute do Roberto Carlos e caísse nocauteado.
Foi só eu chegar no trabalho e essa sensação passou, mas o fato ficou na minha memória, e está aqui agora. E deixa claro que, por mais que a gente tente, aquele véu de hipocrisia social que cultivamos com muito esmero todo dia, sem mais nem menos, e na hora que você menos espera, cai. Aí você se desarma, e tenta procurar em vão uma justificativa plausível pro injustificável.
É, somos mais covardes do que imaginamos.

5 comentários:

Menina Enciclopédia disse...

:P

Menina Enciclopédia disse...

sabe q esse post tem muito a ver com o outro do rapaz na padaria q achou q não poderia nunca ser servido? tem a ver, não acha?
beijo!
p.s. vc deveria ter falado q ia ver o filme e ficado com o DVD, depois me entregava! nerdão! rsss

Menina Enciclopédia disse...

ah, outra coisa: aquele clipe é do New Kids on the Block rsss apesar de que eles eram super fãs do Michael Jackson rss

Bruna_ disse...

mestrado em sociologia, benhê? rs
olha eu.. fazendo piada com isso.. mas é que seus últimos posts.. rs

ahh queria falar uma coisa aqui mas vai pegar mal.. vai que não entendem.. ahh eu vou falar.

comunista!!!!

hahaha

Cristina disse...

Eu não entendo disso, mas você poderia intervir na situação, como advogado? Não ia acabar apanhando junto?
Bem, acho que muitas vezes a gente sabe o que deveria fazer, mas trava c/ o excesso de realidade da coisa (?). Você tem se aventurado bastante em SP, hein? rs
beijo!