sábado, 17 de março de 2007

tio karl

("Monaliso"?!)

Bom, pra quem não sabe, apesar de advogado, atualmente eu sou o que jocosamente as pessoas chamam de "analistazinho de crédito". Faço trabalho terceirizado de análise de crédito pra bancos num call-center. Pra aquele banco que "nem parece banco", vocês sabem qual é. Checagem de cadastro, análise e aprovação de propostas de cartões das lojas as mais variadas possíveis. Um trabalho sacal, mas ao menos tempo divertido (em 1% do tempo, deixemos claro), e também profundamente provocador (no sentido de me fazer pensar em como essa bagaça gigantesca chamada de "sistema" ou "máquina" funciona).

Esses dias estava analisando uma proposta de crédito pra cartão de uma rede de lojas de material pra construção. O sujeito (cliente) era dono de uma empresa de segurança particular, e havia declarado uma renda de R$20.000,00 por mês. Fiz a análise, chequei os dados, contatos com referências, tamanho da empresa, quantidade de funcionários, participação societária, tudo certinho. O sujeito possuia dois carros importados de luxo na garagem, um deles novo. Enfim, liberei a proposta com a renda declarada, pois o sujeito ganhava isso mesmo, e ficou com um cartão pra compras com limite baseado numa renda quase irreal pra um país como o nosso.

Nesse mesmo dia, coincidentemente, eu havia recebido meu "holerit". Logo que terminei a proposta, na hora que fui dar o clique final de aprovação, eu olhei pros números daquele pedaço de papel do lado do meu computador, que pretensamente indicava a minha "mais-valia", e lembrei do tio Karl, aquele velhinho barbudo hoje tão esquecido e desprezado.

Eu fique lá, uns 5 minutos, pensando, pensando, e pensando no que aquilo representava. Eu ali, fim de dia, com o saco na lua, depois de ter trabalhado que nem um camelo o dia inteiro, e aquele sujeito lá, na loja, sentado na cadeira, provavelmente com seu rolex no pulso, olhando pro dito, e reclamando com o lojista porque de tanta demora pra aprovar "uma merdinha de cartão de loja".

Várias imagens, pensamentos, teorias, explicações, não-explicações, devaneios ficaram sobrevoando minha cabeça, girando pra lá, girando pra cá. Mas no final, o que sobrou foi essa imagem. Um simpático velhinho, meio estrábico, com um sorriso maroto dissimulado por trás de uma gigante barba malcuidada, como que dizendo: "é isso aí, meu rapaz..."

E eu dei o meu próprio sorriso maroto, e peguei a próxima proposta que aguardava lá parada no "sistema".

3 comentários:

Cristina disse...

É por essas e outras que a gente precisa apressar a revolução, mesmo que seja através do pagode. Como dizia um personagem do Veríssimo olhando pra burguesa: "Você vai ver só! A mais-valia vai acabar..."
;]

Menina Enciclopédia disse...

ontem tive aula de conhecimentos gerais, o cara manja muito de geo política, falou do marx e fiquei pensando no mundo tão contrário de hj... se ele estivesse vivo essa barba estaria virada pra cima de espanto rss
beijo e q a força esteja com vc! rss

sonstiges disse...

E eu sei exatamente o que vc disse!