sábado, 7 de abril de 2007

"So ya, thought ya, might like to go to the show.."

Yes, I did.

Com um razoável atraso, cá estou eu pra relatar a minha última experiência de audição musical coletiva. Experiência "sui generis", com certeza. Pois dificilmente voltarei a ver algo do gênero. Não só porque esse tipo de "estética pop" está em extinção (o que os críticos chamam de "shows de rock afetados e megalomaníacos"), como o articulador do tal espetáculo também já está quase lá "no bico do corvo".

Bom, estou falando do show do Senhor George Roger Waters, ex-membro de uma singela banda de rock chamada Pink Floyd. Os leitores mais habituais desse blog já puderam perceber que eu sou um admirador do som da banda. O título do espaço aliás denuncia isso. Então, como fã do som, serei obviamente parcial.

Todos nós temos aquelas situações/eventos em que não pensamos duas vezes antes de torrar nossas economias financeiras. No meu caso, os shows das minhas bandas favoritas de rock. Nesse evento em especial o aporte de recursos financeiros foi violento, mas valeu a pena.


No aprazível sábado 24 de março, chegamos ao estádio por volta das 16 horas (o show era as 21 horas). Eu, "bobby-irmão", "bobby-irmã", "bobby-pai" (show em família; aliás, essa era talvez a principal "tribo" da noite). "Bobby-pai" a princípio não iria ao show, mas não resistiu em escu
tar o dito do lado de fora e apelou aos cambistas faturando um ingresso a R$75,00 (o mais barato -inteira- era R$140,00, se não me engano). Isso sim é que é saber negociar "sob pressão" (em especial pro lado do cambista).

Além da família "bobby", mais dois amigos iriam ver o senhor Waters lá do gargarejo. Privilégio que me espacapou pelos dedos por uma diferença de duas horas na compra dos ingressos. Mas depois eu me resignei e não me decepcionei com o visual que tive do palco. Ficamos quase de frente para o dito com uma visão, digamos, bem "holística", o que é muito importante pra esse tipo de show (na verdade, o baixista que criou isso tudo é um mero detalhe lá no meio).

Bom, vamos pro show. Quando entrei no estádio e procurei uma boa cadeira pra apreciar o espetáculo, fiquei reparando no fundo do palco numa imagem que parecia uma maquete gigante. Uma vitrola, uma garrafa de uísque e um aeromodelo de brinquedo. Na verdade, era um telão. O negócio era tão perfeito que demorou pra cair a ficha do que se tratava. E aquela singela imagem de um quarto nostálgico fez com que eu sentisse algo parecido com um "insight". Daquele ponto em diante, eu tive uma sensação ímpar de que o investimento valeria a pena, e que eu teria uma noite especial.

Por volta de uns 15 minutos antes do horário marcado, uma bela voz feminina anunciava que o show estava prestes a começar. O povo começou a urrar. Ela também pede pras pessoas das cadeiras do gramado permanecerem sentadas durante o show. Esse pra mim foi o ponto mais baixo de toda a noite. Isso não é coisa que se peça pra um público de show de rock and roll, por mais solene, "cabeçudo", e "viajante" que seja o clima do dito. Foi ridículo.


Enfim, a gritaria aumenta quando uma fumaça de cigarro aceso aparece no telão, uma mão surge e abre a garrafa de uísque e despeja uma dose no copo. Liga o rádio da vitrola e sintoniza numa estação que toca Elvis. Desse momento em diante, eu pude presenciar um senhor show de música pop, com "P
" maiúsculo.

Depois de passear no "dial" durante uns 10 minutos, deixando o povo excitado, aquela imagem de letargia da lugar aos martelos facistas de In the Flesh?. Talvez a melhor música já criada pra abrir um show de rock. Waters intima o povaréu trazendo algumas "bad news", reclamando que não foi com a cara daquele sujeito regulando o canhão de luz, nem com aquele outro fumando um baseado na primeira fila, muito menos com aquele "crioulo" e aquele judeu batendo palma e gritando lá no canto da platéia. Ironia fina.

Em seguida vem Mother. Clássica. Voltando à imagem e ao clima daquele melancólico quarto de hotel onde permanece estático o grande "herói" da noite.

Na seqüencia, Set the Controls for the Heart of the Sun e Shine on you Crazy Diamond. No momento mais lisérgico e psicodélico do show (um dos melhores, na minha opinião), com imagens da banda em início de carreira, uma "viagem pelo espaço sideral", e fotos do genial Syd Barrett lançadas entre as estrelas, numa bela homenagem pro cara que começou e arquitetou tudo.


Nesse ponto, Waters põe o "pé no chão" denovo e lança
Have a Cigar. Um rock/blues classudão que ficou excelente na versão ao vivo dessa turnê. Apesar dessa música sempre ter ficado meio escondida, eu sempre gostei dela. Fazendo um relato sarcástico e despojado da vida no "showbiss", e indiretamente da entrada sempre deslumbrante e inocente que todos nós temos na chamada "vida adulta".

Segue Wish you Were Here e a platéia em coro cantando. Um dos momentos "hit" da noite. Bom, essa música dispensa comentários. Todo mundo sabe do que eu estou falando.


Logo após, o nosso amigo Waters abaixa a bola e deixa o show intimista, atacando com o álbum mais deprê do Floyd e suas músicas solo. Southampton Dock, Fletcher Memorial Home, Perfect Sense e Leaving Beirut. Apesar de ser liricamente bela (com belas imagens e alegorias no palco), é a parte musicalmente mais fraca do show. O povo "arroz de festa" fica meio perdido nessa hora. Uns vão ao banheiro, e outros vão comprar cerveja.


Depois de "descer a lenha" na Rainha da Inglaterra e no nosso queridíssimo Bush, ele vem com Sheep, música do álbum mais "punk" (se é que dá pra chamar assim) do Pink Floyd: "Animals". O povo volta a ficar animadão. Principalmente depois que o inconfundível porco rosa alça vôo sobre a platéia pichado com frases mais do que pertinentes como "All we need is education", "Ordem e Progresso?", "Killers, leave the kids alone!", "Salvem a amazônia", e "Bush, o Brasil não está a venda" (essa aqui pichada num ponto, digamos, estratégico do suíno). Aliás, foi excelente essa iniciativa de pichar o porco com assuntos locais por onde a turnê passava (as frases foram escolhidas por uma votação na internet, se não me engano).


No final da música, o porcão foi solto e foi embora passear pelo céu de São Paulo. Fiquei sabendo depois por um blog na internet que parece que o porco saiu do estádio do Morumbi, atravessou a marginal do rio Pinheiros e explodiu (pelo excesso de atitude) na altura do bairro Pinheiros (tem até
foto de um sujeito com os "restos mortais" dele). Ou seja, o porco estava indo em direção ao estádio do Parque Antártica (era só o que me faltava).

Aqui Waters fecha a primeira parte do show e faz um intervalo (é o único show de rock que eu vi até hoje que tem um intervalo de 15 minutos). Durante essa pausa, a imagem da lua fica estampada no telão, como que anunciando o que estava por vir.


O melhor momento do show, sem dúvida (nem precisava dizer), estava pra começar. Aquela inconfundível batida do coração começa a ressoar pelo estádio e faz o povo soltar palavrões de satisfação (eu soltei o meu também, mas acho que só o velhinho-maconheiro-gay-aleijado que estava acompanha
ndo o show do meu lado escutou; aliás, essa figura dá uma postagem a parte aqui no blog). Começa a rolar a performance na íntegra do sensacional Dark Side of the Moon. Exatos 42 minutos de puro rock and roll de primeiríssima linha.

"Breathe, breathe in the air.. don´t be afraid to care". Todo mundo estufa o peito pra cantar. A execução de Breathe foi muito fiel ao original. Aliás, todo o disco foi interpretado de forma a manter o máximo da essência dos arranjos do disco original. Taí uma diferença fundamental das performance do Waters pro resto dos membros do Pink Floyd.

Os "loops" the On the Run na vitrola já são enebriantes, ao vivo ficaram sensacionais. Time foi executada também tentando imitar aquele "punch" único da gravação original. O solo de guitarra em especial lembrou os melhores momentos do Gilmour. "You fritter and waste the hours in an offhand way...". O nosso amigo Waters não grita como o "senhor Barriga" (apelido carinhoso do guitar player do Floyd), mas bota a mesma emoção do tempo em que o citado guitarrista ainda tinha um pouco de alma roqueira.


E por falar em alma roqueira, The Great Gig in the Sky talvez seja uma das maiores e mais autênticas músicas de rock que já foram feitas. Isso sem nenhum acorde de guitarra. Apenas um piano, um baixo, e uma voz feminina i
nspirada. No show, Waters procurou novamente ser fiel ao original, e fazer sua backing vocal soar o mais parecido possível com os gritos da Clare Torry lá em 1973 (muito provavelmente, em um dos seus dias de TPM). Pra mim, um dos melhores momentos do show.

Money foi muito bem executada também, mas eu já vi e escutei versões melhores que o Waters fez em shows solos anteriores. Aqui também fez falta a voz do Gilmour, bem como em Us&Them. Talvez o melhor momento do show. Aliás, difícil um show em que essa música seja executada e ela não roube a cena. Melódica e liricamente perfeita.


Enfim, toda essa seqüência final deu o ápice do espetáculo. A mudança radical pra psicodélica e esquisofrênica Any Colour You Like, fazendo a ligação com a fina ironia de Brain Damage, e o final épico, romântico e ao mesmo tempo desiludido em Eclipse. Mesmo que você ache Pink Floyd algo muito chato, e acredite piamente que o rock não pode se meter a ser "música adulta", não há co
mo não se render emotivamente a essas músicas.


Todo o álbum é dilascerado no palco com uma elegante imagem da Lua passeando entre as cores do prisma. Parafraseando o próprio senhor Waters tentando explicar a sua "mensagem" com a obra: É apreciar de camarote uma viagem sonora pelas nossas contraditórias "cores existenciais".


Teoricamente, é o fim do show. E o Waters volta para o bis, todo animadão. Aliás, eu me surpreendi com o humor dele. Brincalhão, agitado. Digamos que é algo pra lá de raro de se ver.


Depois de um breve silêncio no palco, no meio da escuridão, surge um canhão de luz apontando pra platéia, e uma voz grita: "You!, yes you!!.. stand still laddie!". Começam aquelas "marteladas" do contra-baixo mais paranóico do rock and roll, anunciando The Happiest Days of Our Lifes. Nesse momento, os "arroz de festa" ficam agitados pra entrada do hit pop Another Brick in the Wall. Essa aí, até o vira-lata lá do lado de fora do estádio na sarjeta cantou. Perfor
mance com direito a participação de uma molecada do "Projeto Guri" (algo relacionado a uma ONG que cuida de crianças carentes, se não me engano) no palco. Todos vestidos com os dizeres "o medo constrói muros". Ficou bonito, combinou com o espetáculo, mas era dispensável.

Seguiram Vera e Bring the Boys Back Home pra introduzir a impecável (sempre) Confortably Numb. Mais uma vez o nosso caro Waters tenta ser o mais original possível. Porém, aqui, não há quem substitua o solo do "senhor Barriga". Nada que tire o mérito da performance do esforçado "capanga" do Waters, nem a cara de atortoado do blogueiro que vos fala aquele dia na platéia.

É o fim do show, volta no telão a imagem do nosso amigo lá do começo (o do uísque, você lembra; existe um dele dentro de você), inerte sentado na cadeira enquanto rola o solo de guitarra. Por sinal, essa música foi uma bela escolha pra encerrar o show. Por que, pro bem ou pro mal, é assim que a gente costuma sair de um bom show de rock, confortavelmente entorpecido. Não foi diferente.


E pra concluir, quem gastou (em média) mais de 100 pilas pra ver esse show não estava procurando a última revolução sonora, nem que o Waters fosse apresentar em primeira mão algum tipo de "The Wall" ou "Dark Side of the Moon" do novo milênio. Até porque tudo isso que ele e os quatro ex-colegas fizeram lá no final dos anos 60 e começo dos 70, continua, por incrível que pareça, bem atual.

Aquela multidão que compareceu ao estádio do Morumbi queria "mais do mesmo", e isso não é necessariamente ruim, como os detratores costumam argumentar. Ainda mais quando esse "mesmo" é desse nível. Quem é esperto e inteligente sabe disso, e aprecia. Valeu sim, e muito.

fotos por Henrique e http://ubbibr.fotolog.com/pink_floyd_1967/

3 comentários:

Carol disse...

Fiquei emocionada (e arrepiada!) lendo o seu relato do show. É incrível como até as palavras que usou seriam as minhas escolhidas.
AMEI o show, tanto qto vc e achei as tuas fotos muito lindas.
Realmente foi magnífico, o som simplesmente impecável, os efeitos típicos da melhor banda - na minha opinião - que já existiu. Também senti muita falta do Gilmour no Us & Them e do Syd então... nossa! Achei que ficaram lindas as imagens dele enqto o Roger tocava Shine On Your Crazy Diamond. Aliás, vc reparou que linda estava a lua??? Fiquei abismada! Na hora que começou essa música, a lua (verdadeira, não a do telão) estava em cima do palco, bem no centro. Parecia que Deus também estava lá, assistindo aquela maravilhosa performance e resolveu dar uma contribuição pra tornar tudo ainda mais perfeito.
Puxa vida... faz apenas algumas semanas e eu tô ainda em "depressão pós-show", morrendo de vontade de ainda estar lá, naquelas 2h30 mágicas, incansáveis e, sim, um pouco melancólicas.
Só discordamos em um ponto: Clare Torry. Pra mim ela sempre será insubstituível e por maior que tenha sido o esforço da banda tanto no cd2 do Pulse (colocando as 3 vocals para substituí-la) e o esforço no show do Roger, não tem comparação. A voz dela ainda é a minha preferida e nenhuma das outras conseguiu "imitá-la" em sua plenitude.
Outra coisa que vc esqueceu de mencionar aí no blog: Roger tá um gato! Fato: o cara tá muito, mas muito charmoso! Tipo um Richard Gere sem aquele narigão. Coisa linda de se apreciar! Não só mostrou um trabalho excelente como músico, mas fez nós, mulheres, babarem... (suspiros)
Bjos

Cristina disse...

Vende seu texto pra Rolling Stone ;]
Eu não estava lá, mas pelo que li aqui, deu pra sentir o quão emocionante foi esse... espetáculo.
beijo!

Anonymous disse...

showzão, hein? mas eu não sei q música é essa "wish you were here" ahahaha senhor barriga como do chaves? rsss
beijo! regina