quarta-feira, 10 de outubro de 2007

gerúndio, o pós-moderno

Esses tempos ouvi comentários sobre o governador do Distrito Federal ter "eliminado", por decreto, o uso de uma das formas nominais do verbo (gerúndio) nas repartições públicas. De início, achei que era alguma gozação, mas depois de uma pesquisa na net achei, estava lá, na íntegra:

Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo
100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.
Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.
Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília
JOSÉ ROBERTO ARRUDA

E eu fiquei imaginando quais seriam as "disposições em contrário" dessa bizarrice. Apesar do bom humor e tudo, isso demonstra bem o nível dos políticos que nós temos. Se fosse na Suécia, onde o povo é maduro e a sociedade é desenvolvida, esse tipo de "passatempo legislativo" não seria nada demais. Mas é só olharmos um pouco a nossa volta pra constatar o tipo de civilização "meia-boca" que nós somos e perceber que temos assuntos muito mais importantes pra tratar.

Bom, "terceiro-mundices" à parte, o gerúndio realmente é uma praga. Depois de ter lido isso eu comecei a pensar nos motivos para essa onda de "gerundismo". Poderíamos botar a culpa nas mocinhas do telemarketing e dos serviços 0800, mas eu acho que a coisa não é tão simples. Eu mesmo andei reparando (olha só!) que uso muito gerúndio. Nas últimas revisões de postagens que tenho feito aqui no blog fiquei de olho nisso, e vi muito mais "ndo" do que eu queria (ou imaginava) nos meus textos.

Na verdade, acho que isso é um grande sintoma da nossa "era", digamos assim. A tal da pós-modernidade é a grande época do agir "ad eternum". Da contínua busca por valores, significados que nunca se "solidificam". Por isso estamos sempre buscando, analisando, categorizando, filtrando, transformando, alterando. Vivemos em um mundo onde as idéias não se "sedimentam", simplesmente transitam, quase que "vaporizadas". Tudo é relativo. E, por consequência, nada termina no particípio.

(In)felizmente ainda não cheguei a nenhuma conclusão sobre os benefícios ou prejuízos de se viver a vida no gerúndio. Porque eu, você, nós todos, estamos indo pra algum lugar. E isso é muito mais filosoficamente complicado do que simplesmente dizer "iremos".

3 comentários:

Carol disse...

Sempre estamos caminhando! ops! Sempre estamos à caminho!

Cristina disse...

A sua explicação faz sentido. Mas esse decreto é bizarro demais...

Menina Enciclopédia disse...

uma vez, acho q na facul, disseram q foi por culpa do inglês q estamos introdizINDO rss o gerúndio na nossa língua, pq traduziam os tempos verbais ingleses q têm essa característica ao pé da letra, principalmente em empresas de informática, isso dá uma tese rsss