quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

o ócio criativo e o mundo cor-de-rosa

("O Ócio Criativo", Domenico de Masi, 2000, ed. Sextante)

Esses tempos eu terminei de ler o livro "O Ócio Criativo" do sociólogo Dominico de Masi (depois de alguns anos de atraso). Confesso que eu tinha uma expectativa na leitura que acabou não se confirmando. Tudo bem que não se pode pedir muito de um livro baseado em uma entrevista, e eu nem queria realmente algo mais profundo e denso pra ler, mas o problema na verdade foram as "cores" pintadas. Tudo muito cor-de-rosa, otimista. Nunca li algo tão otimista vindo de um sociólogo.

Bom, a teoria do "ócio criativo" do autor é baseada em larga escala nas idéias do pensador Alvin Toffler, que formulou a chamada "terceira onda", ou o que se costuma denominar de era pós-industrial. A nova divisão social do trabalho, o propalado "fim do emprego", a revolução tecnológica. Isso tudo que nós da geração dos 20 e poucos anos já estamos sentindo na pele. Nesse ponto, a análise feita no decorrer do livro é perfeita. Ele discorre sobre o que chama de "traços" da "nova sociedade" que está surgindo: globalização, tempo livre (graças à tecnologia), "intelectualização", subjetividade (criatividade, estética), androgenia (emotividade, feminilidade), e o carisma. Até chegar no "ócio criativo", a síntese de todos esses fatores que será o grande motor econômico/social do novo milênio. Tudo muito bem dissertado. Mas a questão que fica sem resposta é: tem pra todo mundo? Ele tenta se explicar, mas lá no fundo fica implícito o temido "não".

O que eu mais gostei no livro foi que o De Masi busca sair um pouco daquela supervalorização do trabalho tão cara aos sociólogos em geral, escapando um pouco de uma certa crítica marxista pura que não cabe nos dias atuais como enfrentamento da exploração capitalista. Em suma, tanto o capitalismo liberal quanto a crítica marxista jogam o trabalho no centro da "engrenagem social", elegendo-o como o fim de tudo e o motivo básico da nossa existência. Visão essa que não teria espaço na sociedade pós-industrial. Essa passagem é muito boa:

"O trabalho oferece sobretudo a possibilidade de ganhar dinheiro, prestígio, e poder. O tempo livre oferece sobretudo a possibilidade de introspecção, de jogo, de convívio, de amizade, de amor e de aventura. Não se entende por que o prazer ligado ao trabalho deveria acabar com a alegria do tempo livre.

Mas a missão que temos diante de nós consiste em educar nós mesmos e aos outros a contaminar o estudo com o trabalho e com o jogo, até fazer do ócio uma arte refinada, uma escolha de vida, uma fonte inesgotável de idéias. Até realizarmos o 'ócio criativo'". (p. 320)

De qualquer maneira, eu recomendo a leitura do livro sem pestanejar. Principalmente pro pessoal da minha geração, nós que estamos começando a pegar a "rabeira" desse furacão sócio-político-economico que está surgindo no horizonte.

3 comentários:

Bruna_ disse...

várias vezes eu já vi essa frase "não atendeu as expectativas"..rs vc está se "expectando" demais. rs

Cristina disse...

Eu reparei que muitos sociólogos estão vendo o futuro cor-de-rosa... quem sabe, né?
A propósito, vc vai querer ler o Kurz agora? se quiser, eu te levo. :]

Alexandre disse...

eu quero sim.. :)