sexta-feira, 30 de maio de 2008

momentos maravilhosos do nosso dia-dia


Se você acha que sua vida está muito pacata e monótona, faça como eu. Arranje um vazamento de água no duto de tubulação principal do seu prédio, faça com que esse vazamento atinja o teto do banheiro dos apartamentos de dois andares abaixo do seu, e seja feliz.
Nada como ficar praticamente uma semana inteira com pedreiro passeando pelo seu já minúsculo apartamento, sujando e quebrando tudo, e detonando com a sua já vacilante rotina diária.
É a tal história, nunca reclame da sua vida, pois sempre existe a chance da coisa piorar.

domingo, 25 de maio de 2008

"Minor Earth Major Sky" (empty spaces soundtrack)

Poucas músicas representam tão bem o espírito desse blog como essa. Faixa título do (na minha opinião) subestimado álbum do A-ha lançado no começo desse século. Aliás, graças ao dito eu pude mudar um pouco a minha imagem deles, que antes eu considerava como um quase "desvio musical", parafraseando a colega de "bloguismo" Aline. Talvez o melhor disco da banda de Morten Harket e companhia limitada, que praticamente passou em branco.



I can`t see me in this empty place
Just another lonely face
I can`t see me here in outer space
It`s so hard to leave a trace

And I try and I try and I try
But it never comes out right
Yes I try and I try and I try
But I never get it right

It`s a
Minor earth major sky

I can`t see me in this lonely town
Not a friendly face around
Can you hear me when I speak out loud
Hear my voice above the crowd

And I try and I try and I try
But it never comes out right
Yes I try and I try and I try
But i never get it right

It`s a
Minor earth major sky

Minor earth major sky

And I try and I try and I try
But it never comes out right
Yes I try and I try and I try
But i never get it right

It`s a
Minor earth major sky

Minor earth major sky

(A-ha, "Minor Earth, Major Sky")

sábado, 24 de maio de 2008

Sobre Jefferson Peres (in memoriam) e a intransigência

Ontem faleceu o senador Jefferson Peres (PDT-AM). Um dos parcos guerreiros e sobreviventes da dita "banda boa" da política nacional. Era advogado e professor (nobres atividades), mas acima de tudo, um defensor ferrenho da ética e da chamada probidade.
Correndo a notícia, eu tentava identificar a causa da morte, reportava-se que foi provocada por um infarte fulminante. Comentava-se na mesma notícia que o senador era um sujeito preocupado com a saúde. Não fumava, não bebia, não era obeso (muito menos gordo), enfim, se cuidava. Em que pese a idade avançada (76 anos), eu me surpreendi com tal fatalidade.
Comecei a refletir sobre a questão da intransigência que muitos tem consigo mesmo. Como bom sujeito ético que era, o nosso caro senador provavelmente sofria do mal do excesso de auto-crítica (ou não) *. Pessoas que procuram o perfeccionismo a todo custo. Digo por conhecimento de causa própria, acredito que também sofra desse mal. É tiro e queda, o coração do nobre senador provavelmente parou por causa disso (ou não) *.
Trabalhei por uma ano e pouco em uma empresa gigante e lembro bem do meu grau de estresse e tensão por ter que cumprir bem o meu trabalho, observar a leniência e deslizes alheios, e ainda ter que dar satisfação a mim mesmo e meu orgulhoso ego. Foi um período em que me senti "sugado". Não só pela gana por resultados da própria empresa e o "sossego" dos colegas, mas também pela minha auto-intransigência. Emagreci demais e virei um verdadeiro "vara-pau" (no melhor estilo Jefferson Peres).
Bom, ficou o aprendizado. E acredito que estou melhorando nesse ponto. Aos pouco você cresce e percebe que ser, ético, íntegro é algo dissociado das suas próprias paranóias ególatras. Ter consciência disso já é um grande passo.
Só espero que até os meus setenta e poucos anos a coisa já esteja bem equilibrada.

(ou não) * - li no blog do Josias de Souza que o senador se encontrava abatido e desiludido com o rumo e o nível da política nacional; talvez seja isso, não a nada mais doloroso pra um coração do que a amargura.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Mulhollands

Desocupado há pouco mais de três meses pelo ex-reitor da Universidade de Brasília Timothy Mulholland, o apartamento então destinado para uso do reitor continua mobiliado com itens de luxo. A decoração do imóvel custou R$ 470 mil, segundo avaliação do Ministério Público, que diz que esse dinheiro deveria ter sido usado em pesquisa.
A compra dos artigos de decoração para o apartamento foi uma das razões que leva
ram o Ministério Público a mover ação de improbidade administrativa contra Mulholland e seu decano de finanças, Erico Weidle. Mulholland deixou a reitoria no mês passado, depois de alunos invadirem seu gabinete e ficarem na reitoria por duas semanas.
A Folha entrou no imóvel, ocupado por Mulholland por cerca de um ano, e encontrou os itens mais polêmicos da decoração estocados no quarto de empregada. Lá estão as três lixeiras que viraram símbolo do luxo (R$ 2.738, segundo o Ministério Público). O abridor de
garrafas, de R$ 1.400, está no fundo de um armário.
No mesmo quarto estão quatro das cin
co televisões de tela plana do apartamento -as quatro por R$ 11.599, segundo a Procuradoria. Elas estão embrulhadas numa colcha e dentro de uma caixa de papelão. Há marcas na parede e pontos de ligação das televisões nas três suítes e na copa. A quinta televisão está instalada no andar superior.
(...)
O apartamento tem 391 m2, divididos em dois pavimentos, sendo o segundo a cobertura. No primeiro, há três suítes, um escritório com banheiro, sala, cozinha e copa. O segundo é destinado ao lazer: área para home theatre, churrasqueira, sauna e uma jacuzzi.


Piscina e hidromassagem para 7 pessoas na cobertura do apartamento em que o ex-reitor da UNB (Universidade de Brasília) Timothy Mulholland morava


Abridor de garrafas comprado pelo ex-reitor da UNB (Universidade de Brasília) Timothy Mulholland

fonte: Folha de S. Paulo
img: Lula Marques


*

A última vez que fui pra Brasília, pra prestar um concurso, indaguei junto ao meu pai sobre como uma cidade onde a esmagadora maioria da atividade econômica gira em torno da burocracia estatal poderia ostentar tanta opulência material. A pergunta surgiu depois de ter observado uma Mercedes-Benz estacionar logo ao lado do nosso "canela" (Fiat Uno) no aguardo da abertura do semáforo. Ainda lembrei que, na maioria dos países desenvolvidos, em especial os europeus, estar inserido no funcionalismo público de carreira é aceitar de antemão que você irá viver bem e servir o seu país, mas que com certeza não virará um milionário.
Aqui em terras tupiniquins, desde os idos longínquos da nossa formação enquanto nação, o raciocínio é invertido. Entrar para os quadros dos servidores públicos da República é como que uma carta branca para acumular riqueza como se fosse um empresário.
Eu tenho uma certa teoria pra comigo mesmo que, junto com o quesito educação, quando essa lógica "boquinha" for riscada do nosso excêntrico quadro de justificações tropicais, a coisa vai andar e não vai sobrar pra ninguém. Talvez nós não nos tornemos o próximo Estados Unidos da América, mas seremos severamente invejados. Pena que não vou ver isso. E acho que nem meu hipotético filhote.
Mas o que vale é a indignação. Enquanto ela estiver presente, a esperança é realmente (no cliclê ou não) a última que morre.

*

Justificação

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Em epistemologia, justificação é um tipo de autorização a crer em alguma coisa. Quando o indivíduo acredita em alguma coisa verdadeira, e está justificado a crer, sua crença é conhecimento. Assim, a justificação é um elemento fundamental do conhecimento.
(...)
Uma maneira de explicar a justificação é: crença justificada é aquela que nós temos o direito epistêmico intelectual de defender. De acordo com o internalismo em epistemologia, de alguma maneira cada um de nós é responsável pelo que acredita. Cada um de nós tem uma responsabilidade intelectual ou obrigação de acreditar no que é verdadeiro e de evitar de acreditar no que é falso. Assim, a justificação é uma noção normativa. Isso significa que tem a ver com normas, direitos, responsabilidades, obrigações, e assim por diante. A definição padrão de normatividade é que um conceito é normativo se e somente se é um conceito dependente de normas, isto é, de obrigações e permissões (interpretadas muito amplamente) envolvidas na conduta humana. Aceita-se geralmente que o conceito da justificação é normativo, porque é definido como um conceito a respeito das normas acerca das crenças.

*

Mulhollands - eu gostei disso, dá um belo nome de banda punk. Se eu tivesse uma.

domingo, 18 de maio de 2008

Sobre o tempero das questões fundamentais


Observar a química dos condimentos de um clássico da culinária preguiçosa e filosofar a partir disso. Notar como o "bate-cabeça-idiossincrático-existencial" do nosso dia-dia pode ser visualizado dentro de uma panela fervente no fogão. Tudo isso é bem inusitado, bizarro, mas também interessante. Pelo menos pra mim.
Eu tinha pensado nessa postagem enquanto cozinhava meu macarrão alho & óleo. Basicamente, refletir sobre a arte de "temperar" a própria existência até atingir o ponto ideal. Pois se formos pensar bem, dar rumo para a própria vida não é algo muito diferente de saber a exata proporção de sal e óleo para um litro de água.
Fazer um bom e apetitoso macarrão exige perícia, mas também é um ato de sorte. Algumas vezes com pouco sal, outras excessivamente oleoso, vez ou outra o bicho deslizando perfeito na sua boca, e você se perguntando como ráios conseguiu chegar naquele paladar sui generis.
Em suma, é de um alento incomensurável saber que meu macarrão pode ser muito mais esclarecedor e revigorante pra minha inquieta mente do que todos os escritos do Sartre reunidos.
Ave spaghetti!

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Do "cheiro" delicioso de autocomplacência e as recaídas

Autocrítica.

Datação
1899 cf. CF1

Acepções
substantivo feminino
1 ato de o indivíduo reconhecer as qualidades e defeitos do próprio caráter, ou os erros e acertos de suas ações

Paranóia.

(do grego antigo παράνοια, "loucura", composto de παρα-, "desordem" e do tema afim a νοῦς "mente") é uma psicose que se caracteriza pelo desenvolvimento de um delírio crônico (de grandeza, de perseguição, de zelo etc.), lúcido e sistemático, dotado de uma lógica interna própria, não estando associado a alucinações. A paranóia não acarreta o deterioramento das funções psíquicas externas à atividade delirante. Estas duas últimas características a distinguem da esquizofrenia paranóide.

No indivíduo paranóico, um sistema delirante amplo e totalmente defasado da realidade pode coincidir com áreas bem conservadas da personalidade e do funcionamento social do sujeito, pelo que a repercussão da paranóia no funcionamento geral do indivíduo é muito variável - a bizarria dos comportamentos do indivíduo depende do âmbito mais ou menos restrito do sistema delirante, pois a atitude geral é coerente com as convicções e suspeitas; por exemplo, quando o delírio é amplo, integrando todos os familiares ou colegas de trabalho num conflito prejudicial ao sujeito, as suas atitudes de defesa e/ou de vingança tornam-se tão inadequadas e graves que conduzem a graves defeitos pessoais e sociais. Os conteúdos típicos dos delírios incluem a perseguição, o ciúme, o amor (erotomania) e a megalomania (crença na própria posição e poder superiores).

fontes: Dicionário Houaiss e Wikipedia


*

Eu gosto de filosofar sobre a linha tênue que separa esses dois substantivos. E a pergunta bate: Onde será que eu me encontro? Na serena autocrítica ou na patológica paranóia? Anteontem mesmo quase apaguei minha última postagem no blog por não ter gostado do que escrevi (no final, exclui só algumas linhas). Queria botar em palavras simples os sentimentos especiais e significativos que tive dentro de um mosteiro e acabei, na minha visão, editando uma postagem levemente pedante e clichê. E isso é só um exemplo.
Volta e meia pego-me entremeado em algumas neuroses por opções e escolhas que fiz no passado remoto, outras que estou fazendo no presente, e também por aquelas que mal estão se formulando na minha cabeça. E é difícil delimitar exatamente onde termina a autocrítica saudável e começa a paranóia destrutiva. Se por um lado você "cozinha" bem os seus pensamentos e/ou devaneios e toma atitudes pretensamente sensatas, por outro lado você se torna uma potencial bomba-relógio pronta pra detonar um belo de um cogumelo psiconeurótico.
Adjetivos como "sério", "adulto", "compenetrado", dividem espaço com "tranqüilo", "zen", "sossegado" na definição da sua personalidade, somando-se a uma bela dose de verve megalomaníaca e idiossincrática. O bom é que com o tempo (e o esperado amadurecimento) tudo que era branco e preto passa a ser mais dégradé, e você se torna um sujeito mais palatável ao gosto do bom trato das relações humanas. Quando as coisas chegam nesse ponto, fica fácil enxergar o lado bom desse criticismo inato, e você meio que sente um alívio. Por todos os poros, começa a exalar um "cheiro" delicioso de autocomplacência.
Porém, junto com esse amadurecimento, surgem esparsas e randomicamente algumas recaídas, e é onde a coisa pega. Nada que o faça voltar a conspirar contra si mesmo de uma maneira psicopata, mas surge aquela sensação de que ainda falta alguma coisa. Algo que a minha mente sabiamente deixa ao relento. Ainda bem.

*

Postagem produzida e editada ao som dos melhores petardos das bandas "paranoicamente" deliciosas Radiohead e Pink Floyd - como manda o figurino.

sábado, 3 de maio de 2008

Da arte de dialogar consigo mesmo


As arcadas do Mosteiro de São Bento. Um silêncio no ambiente. Um silêncio na alma. Um conforto. Algo que é difícil de racionalizar. Uma serenidade e uma placidez que cortejam uma certa angústia interna inabalável. Um olhar pra própria impotência perante as idéias, os sonhos, e a vigilância pelas necessidades básicas. Você é aquilo que você constrói. As suas certezas vagam pelo ambiente, dialogam com aquelas pinturas sacras encravadas no teto. Elas olham pra você como que pedindo força, sabedoria, e serenidade. Você aceita. E o jogo está feito. A beleza e o humano são os combustíveis de que você necessita para ser real, e viver o real.

img: http://www.focusfoto.com.br