sexta-feira, 27 de março de 2009

Radiohead em São Paulo 22.03.2009

Meu amigo Pérsio Kojima já editou uma bela resenha (leiam!) sobre o fatídico 22 de março de 2009, discorrendo sobre os detalhes, as pessoas, o clima, o show em si, o setlist, enfim, o relatório completo dessa monstruosidade chamada Radiohead.

Com uma certa dificuldade pra organizar as idéias, vou tentar deixar um pouco das minhas impressões aqui. Até porque, como a imensa maioria dos presentes na Chácara do Jockey, eu também entrei numa espécie de transe hipnótico-emocional que durou duas horas e meia e reverberou ainda por mais alguns dias.

(se não fosse o bendito do camera man do Multishow, tudo estaria mais belo)

Antes de tudo, eu tive uma bela surpresa, porque não imaginava que fosse ainda ter a oportunidade de presenciar uma apresentação de rock and roll desse naipe nesses tediosos anos iniciais do século XXI. Era como se estivesse vendo um ensaio de gravação dos Beatles na Abbey Road enquanto editavam Revolver em 1966, ou uma apresentação do Pink Floyd no clube UFO em 1967, ou um concerto de três horas de duração do Led Zeppelin em alguma fazenda perdida no interior da Inglaterra em 1969, ou ainda um "pocket show" do Neil Young em alguma casa de show do interior dos E.U.A. em 1971.

Pois a impressão que ficou pra mim foi essa. O Radiohead é hoje a única banda de rock que consegue fazer (re)pulsar, de forma totalmente inovadora, algo semelhante àquela sensacional magia estético-musical-coletiva que explodiu nos idos de 1966 e reverberou com força até o início dos anos 70. Conseguem captar e canalizar, eu diria de forma quase solitária, os "sentimentos estéticos" da geração pós-"baby boom". No fundo, eles são os nossos Beatles, a nossa "cara musical-estética" pop do início de século.

(acho que foi nessa altura que uma Radiohead girl me deu uma "encoxada")

Pois assim foi. Uma cártase anormal tomou conta daquele povo das 22h (horário de Brasília) do dia 22 de março até mais ou menos as 0:20h do dia 23. Transpirava-se euforia. Mas não uma euforia qualquer de um bando de fãs que viam o seu ídolo. Havia algo mais profundo, uma "conexão" que não é comum e que explica o status e a importância dessa banda. Aquele palco da Chácara do Jockey exalava pop art (?) na sua forma mais sublime. Unindo de forma impecável o calor das pessoas, as melodias inebriantes e pungentes do trabalho coeso e perfeccionista da banda, os efeitos visuais "chapantes", tudo espirituralmente sincronizado e irretocável.

Na minha curta existência já tive o privilégio de presenciar vários shows de pop/rock de grosso calibre, e nenhum chegou aos pés desse. Talvez o Franz Ferdinand no Festival Motomix em 2006 tenha conseguido algo parecido, mesmo assim, com um feeling muito mais "mundano" e trivial, digamos assim. Radiohead consegue ser etéreo e carnal ao mesmo tempo sem qualquer tipo de "chatice" ou "histeria coletiva". Junta sem muita dificuldade, por exemplo, a parte boa da grandiloqüencia de um show como o do Roger Waters (ex-Pink Floyd - Estádio do Morumbi - 2007), com a efervecência de uma apresentação do Oasis (Credicard Hall - 2006) ou do Interpol (Via Funchal - 2008). Todas que, de uma forma ou de outra, deixavam algo incompleto.

(casalzinho nos amassos "facilitando" o meu enquadramento)

Poderia comentar aqui faixa por faixa desse show estupendo, mas seria pura redundância. Tudo estava em seu grau máximo. Com exceção da organização do evento, que fui uma das piores que eu já vi. Para a Planmusic não havia muita diferença entre a orda de fãs do Radiohead e um rebanho qualquer de gado bovino. Se a banda não tivesse feito um show estupendo que fez valer o ingresso e até sobrar, provavelmente seria o ingresso mais caro (no sentido custo X benefício) que eu já paguei.

Mas enfim, a (des)organização não conseguiu manchar a noite. Noite aliás que nos brindou com um céu milagrosamente limpo para uma São Paulo sempre poluída, na metade final do show. E ali ficou o meu "moment of clarity" do dia: ao som de "Reckoner", ora olhando pro céu, ora pro palco, ora pras pessoas a minha volta, dando-me conta de que lá estava eu me deliciando e tomando parte, nem que por umas parcas horas, do centro da história da música popular ocidental.


ADENDOS:


- shows de abertura: vi parte da apresentação dos Los Hermanos, pra mim não fedeu nem cheirou, de qualquer maneira, um bom show; Kraftwerk foi o que eu esperava, ou seja, clássicos da música pop eletrônica despejados com correção e competência - quando terei oportunidade de escutar as "pérolas" Autobahn, The Robots, Radioactivity, e Boing-Boom Tschak/Musique Non-Stop novamente? Pelo menos já estou garantido.

(Kraftwerk em ação com "Musique Non-Stop")

- a banda, as músicas, os álbuns, e o show: algo que me chamou atenção foi o fato do Radiohead ser a única banda que eu tive oportunidade de assistir até hoje que supera em todas as execuções ao vivo as versões originais das músicas, aquelas cravadas nos álbuns; sem falar no vocal do Thom Yorke, que é de longe muito mais envolvente que o das gravações originais; e pra finalizar, se eu fosse músico, eu teria uma puta e desgraçada inveja de como esses caras executam e transformam seus petardos ao vivo.


SETLIST:


Radiohead
Chácara do Jóquei, São Paulo, Brazil
March, 22, 2009

15 Step (In Rainbows)
There There (Hail To The Thief)
The National Anthem (Kid A)
All I Need (In Rainbows)
Pyramid Song (Amnesiac)
Karma Police (Ok Computer)
Nude (In Rainbows)
Weird Fishes/Arpeggi (In Rainbows)
The Gloaming (Hail To The Thief)
Talk Show Host (B-side - Trilha Sonora do filme Romeu e Julieta)
Optimistic (Kid A)
Faust Arp (In Rainbows)
Jigsaw Falling Into Place (In Rainbows)
Idioteque (Kid A)
Climbing Up The Walls (Ok Computer)
Exit Music (For A Film) (Ok Computer)
Bodysnatchers (In Rainbows)

Encore 1
Videotape (In Rainbows)
Paranoid Android (Ok Computer)
Fake Plastic Trees (The Bends)
Lucky (Ok Computer)
Reckoner (In Rainbows)

Encore 2
House of Cards (In Rainbows)
You and Whose Army (Amnesiac)
True Love Waits (I Might Be Wrong)/Everything In Its Right Place (KidA)

Encore 3
Creep (Pablo Honey)

sábado, 21 de março de 2009

musas (10)


CLÉO PIRES

quinta-feira, 19 de março de 2009

insólitas

Já que estamos sem tempo (bizarro isso), vamos nas "twitteiras" de hoje, pra não deixar isso aqui desatualizado:

"Entre as 181 diretorias do Senado há uma encarregada exclusivamente de facilitar o check-in e despachar a bagagem dos congressistas em viagem. Outra cuida das residências oficiais - o 'gabinete' desses diretores é uma sala localizada na garagem dos blocos onde moram os senadores, na Asa Sul de Brasília. (...) Há diretores que comandam 'departamentos' com três funcionários."

Renata Lo Prete, Painel do Leitor, Folha de S. Paulo, 19/03/2009, A4.

"O Federal Reserve (banco central dos EUA) anunciou que poderá imprimir mais de U$ 1 trilhão para ampliar a oferta de dinheiro a bancos, empresas e companhias de crédito imobiliário. O valor será usado para comprar até U$ 300 bilhões em títulos de longo prazo e U$ 750 bilhões em papéis garantidos por dívidas imobiliárias."

Manchete de capa Folha de S. Paulo, 19/03/2009.

Ler o jornal no cereal matinal tem sido uma das atividades mais animadoras pra mim ultimamente. Simplesmente porque o insólito anda tomando cada vez mais espaço.

Pra quem ainda não está a par, a pouco tempo a mídia descobriu que nosso Senado Federal possui nada menos que 181 cargos de direção. E como bem diz o trecho citado logo acima, pra departamentos extremamente importantes e vitais pro bom funcionamento da nossa república. A dita Casa possui 81 senadores, ou seja, mais de dois diretores por senador. É mole?

Sem falar em outras miudezas como acusações de que a senadora Roseana Sarney (PMDB-MA) usou as verbas indenizatórias do senado pra levar empresários e amigos a Brasília, e o senador Tião Vianna (PT-AC) que está sendo acusado de ter "emprestado" o celular do Senado pra filha viajar ao México.

Já na outra ponta, os yankees estão simplesmente detonando com toda uma secular teoria econômica muita cara a eles sem dó nem piedade: "fazendo" dinheiro a torto e a direito.

Insólito por insólito, temos Radiohead esse final de semana. Um "insólito do bem", que traz um pouco da genialidade humana para acalmar nossas almas embasbacadas com tanta bizarrice (da vida real). Afinal, é pra isso mesmo que serve essa postagem: comunicar que está "caindo a ficha", vou presenciar finalmente a performance da maior banda pop do planeta na atualidade.

Em breve notas sobre o show.

quarta-feira, 11 de março de 2009

do the evolution


enviado por Cris Traskine.

garoto enxaqueca e seu termostato

Eu sabia que não estava louco, e que a causa de algumas das minhas piores e mais recentes dores de cabeça tinha algo a ver com o clima. O mais legal é que a coisa só tende a piorar.

Estudo liga aumento de calor a dor de cabeça

Um estudo realizado nos Estados Unidos sugeriu que dias de calor podem aumentar o risco de enxaqueca.

Os pesquisadores analisaram os casos de mais de 7 mil pessoas que procuraram alívio para fortes dores de cabeça no Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, entre maio de 2000 e dezembro de 2007.

No total, 2.250 pessoas receberam um diagnóstico de enxaqueca e 4.803, de dores de cabeça provocadas por tensão ou outras causas.

Eles constataram que o risco de incidência da dor aumentou 7,5% para cada 5°C a mais na temperatura do ar.

(...)

Impacto diário - Os pesquisadores monitoraram vários fatores ambientais, como temperatura, pressão, umidade e poluição do ar, durante os três dias que antecediam as visitas dos pacientes ao hospital e nas semanas subsequentes, para verificar qual destes fatores estaria mais ligado a fortes dores de cabeça.

De todos os fatores analisados, o que se associou mais à dor de cabeça foi a ocorrência de temperatura mais alta 24 horas antes da ida do paciente para o hospital.

(...)

O pesquisador Kenneth Mukamal, do Centro Médico Beth Israel Deaconess e da Escola de Medicina de Harvard, disse: 'Esta descoberta nos diz que o ambiente à nossa volta afeta nossa saúde e, em termos de dor de cabeça, pode ter impacto em muitas pessoas diariamente.'

(fonte e matéria completa: Folha Online, via Ambiente Brasil)

sexta-feira, 6 de março de 2009

There´s a fork in the road ahead

and I don't know which way I'm gonna turn.


Assim como o Neil esse ano, eu também estou com um probleminha logo ali a frente. O tempo se esgotando e ele chegando mais perto.

Continuar enganando a si mesmo ou encarar os desafios na busca do pretenso prazer e realizações próprios? Embrenhar-se no conforto, no concerto familiar, nas convenções, ou (voltar a) manter o foco em si mesmo, nas mudanças, nos amigos, nas descobertas?

Grandes questões a serem apuradas e dirimidas.

quarta-feira, 4 de março de 2009

uma música que me emociona



Quem me conhece sabe que eu não sou muito de marejar os olhos. Aliás, tirando aqueles esporádicos momentos pra lá de personalíssimos, foram poucas as vezes em que isso aconteceu. Recentemente, lembro de ter ficado com os olhos marejados ao final da sessão do filme Na Natureza Selvagem, um daqueles excelentes filmes que não tem como você ficar indiferente.

Via de regra, I´m a rock. Porém, ainda sem saber exatamente o porquê, essa música me emociona profundamente toda vez que a escuto. Comentário a Respeito de John, um clássico do repertório do nosso (parafraseando a Sunflower) "Bob Dylan tupiniquim" Belchior.

A música tem uma "tripla face". De um lado, a homenagem ao John Lennon; do outro, um "sopro" ao mesmo tempo levemente melancólico e convidativo pelo fim da ditadura (ou "ditabranda", como prefere a Folha); e num terceiro lado, uma ode à autenticidade existencial e tudo o que vem com ela.

Lembro que a escutava quando criança, toda vez que eu, meus irmãos e meus pais descíamos a Serra do Mar rumo ao litoral pra visitar nossos avós paternos. Meu pai sempre levava uma fita cassete com uma seleção das músicas do rapaz do ceará, e essa música invariavelmente tocava enquanto meu pai engrenava a marcha lenta na Caravan preta pra descer a rodovia Anchieta.

Não sei, talvez ela seja uma espécie de elo que transpassa toda a minha relativamente curta existência. Quando a escuto, um mar de sensações das minhas memórias afloram. O cheiro da maresia dos momentos de infância na casa dos meus avós no litoral sul paulista, o cheiro da grama e o frio do sereno da Fazenda Garibaldi em Buri, onde passei a maior parte da minha infância. Ao mesmo tempo que me faz lembrar das minhas recentes investidas solitárias na cidade grande, os meus já distantes tempos na faculdade. Tudo cai junto como um raio. E aquele nó na garganta acontece já nos primeiros acordes.

Enfim, não consigo explicar. Só sei que poucas coisas conseguem cortar a minha alma como esse violino, essa gaita, e esse canto ao mesmo tempo altivo, melancólico, sereno, e vivaz.

terça-feira, 3 de março de 2009

História e história

"No dia em que a AIG (American International Group) anunciou prejuízo de US$ 61,7 bilhões no último trimestre de 2008, o maior registrado por uma empresa na história dos Estados Unidos, e que o governo de Barack Obama confirmou que despejará mais US$ 30 bilhões na seguradora, a Casa Branca deixou a porta aberta para futuras injeções de capital.

Segundo o porta-voz do governo obamista, Robert Gibbs, eles estão 'dispostos a considerar a possibilidade de que mais dinheiro seja necessário'. Sem contar os US$ 30 bilhões de ontem, a gigante de seguros estatizada em setembro já levou US$ 150 bilhões de dinheiro público, ou três vezes o total que o governo Obama pretende gastar em diplomacia no mundo inteiro no ano que vem."

(Folha de SP, caderno dinheiro, 03/03/2009)

Lembro que já lia a Folha há 10 anos atrás, e uma notícia de capa do caderno de economia do jornal desse naipe naqueles tempos seria uma blasfêmia, ou uma bizarrice. Eram tempos neoliberais, o nosso Farol de Alexandria (parafraseando o Paulo Henrique Amorim) e presidente da república Fernando Henrique Cardoso tinha acabado de se reeleger e detonava o país com sua célebre desvalorização cambial. E eu? Eu estava entrando pelas arcadas do Pátio dos Leões da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, todo inocente para encarar a graduação de ciências jurídicas e sociais.

Bom, hoje estou aqui, quatro anos de formado nas costas e podendo ter essa sensação diferenciada de ver a História (com "h" maiúsculo) rolar junto com a minha (com "h" minúsculo). É algo novo, pois desde que saí da minha adolescência e me dei por gente, podemos dizer assim, não havia presenciado uma grande e significativa mudança de patamar da linha da História. Tivemos o 11 de setembro, mas nada se compara e esse deslanchar de notícias até a pouco tempo insólitas dentro do sistema financeiro mundial.

Um modo de pensar o mundo está caindo por terra. Aliás, um modo de pensar reciclado, que já esteve governando o lado ocidental do mundo dos indos finais do século XVIII até 1930. O dito liberalismo econômico radical já esteve entre nós e naufragou, dando origem e consequência a duas guerras mundiais.

Ontem no mesmo jornal li uma entrevista bem interessante com o historiador inglês Tony Judt, dando um panorâma histórico do que estamos vivenciando. Ele falava justamente desse ponto de ligação da História da humanidade como um todo (a com "h" maiúsculo) com a dos indivíduos (a com "h" minúsculo), e como esse contato e simbiose interfere e dá rumo à nossa existência:

FOLHA - A crise global é parte de um "ciclo natural" de desaceleração econômica?
 
TONY JUDT - Não faço a menor ideia. Mas tendo a concordar com a crítica da economia neoclássica de [John Maynard] Keynes, segundo a qual os padrões econômicos resultam sempre da decisão de intervir ou não intervir. Estão, portanto, sujeitos a ações de governo não naturais de contraciclo. Prova disso é o grande salto econômico e a estabilidade que sucederam a Segunda Guerra Mundial [1939-45]. Ciclos econômicos longos estão relacionados à memória: enquanto as pessoas tinham em mente a Grande Depressão dos anos 30, elas continuaram acreditando em intervencionismo governamental como forma de garantir emprego e benefícios sociais e prevenir a volta das políticas extremistas que acompanharam a crise. Nos anos 80 e 90, a maioria das pessoas ligadas à autoridade política e econômica não tinha lembrança direta do que havia sido aquela crise e, por isso mesmo, nenhuma razão para preservar ou defender instituições políticas e sociais criadas para prevenir seu ressurgimento. É muito simbólico que a crise tenha ressuscitado agora, no rastro da onda de desregulamentação do sistema de comércio e investimento bancário da década de 90, 60 anos após o New Deal ter sido criado justamente para evitar o colapso que estamos vendo hoje.


Trocando em miúdos, enquanto a história em minúsculo daqueles que viveram os grandes colapsos econômicos do passado viviam e/ou influenciavam nas tomadas de decisões políticas (ou a História em maiúsculo), a cautela e o bom senso econômico ditavam as regras. O apagar-se dessas pequenas historinhas humanas foi mudando o rumo da História, nos levando a cometer os meus erros passados.

Enfim, definitivamente, errar é humano. Mas e cometer o mesmo erro duas vezes? Estamos criando mais um bode expiatório ou realmente não há saída?

segunda-feira, 2 de março de 2009

Two of Us



Morgando na net esses dias e eu encontro esse belo clipe perdido no youtube. Ou esse petardo passou sem divulgação nenhuma junto com o lançamento do Let It Be Naked, ou eu fui tirar férias em marte em 2003 e não me lembro.

É impressionante como esse quarteto rende, 30 anos passados e uma simples edição de imagens os coloca fresquinhos nos nossos ouvidos.