terça-feira, 3 de março de 2009

História e história

"No dia em que a AIG (American International Group) anunciou prejuízo de US$ 61,7 bilhões no último trimestre de 2008, o maior registrado por uma empresa na história dos Estados Unidos, e que o governo de Barack Obama confirmou que despejará mais US$ 30 bilhões na seguradora, a Casa Branca deixou a porta aberta para futuras injeções de capital.

Segundo o porta-voz do governo obamista, Robert Gibbs, eles estão 'dispostos a considerar a possibilidade de que mais dinheiro seja necessário'. Sem contar os US$ 30 bilhões de ontem, a gigante de seguros estatizada em setembro já levou US$ 150 bilhões de dinheiro público, ou três vezes o total que o governo Obama pretende gastar em diplomacia no mundo inteiro no ano que vem."

(Folha de SP, caderno dinheiro, 03/03/2009)

Lembro que já lia a Folha há 10 anos atrás, e uma notícia de capa do caderno de economia do jornal desse naipe naqueles tempos seria uma blasfêmia, ou uma bizarrice. Eram tempos neoliberais, o nosso Farol de Alexandria (parafraseando o Paulo Henrique Amorim) e presidente da república Fernando Henrique Cardoso tinha acabado de se reeleger e detonava o país com sua célebre desvalorização cambial. E eu? Eu estava entrando pelas arcadas do Pátio dos Leões da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, todo inocente para encarar a graduação de ciências jurídicas e sociais.

Bom, hoje estou aqui, quatro anos de formado nas costas e podendo ter essa sensação diferenciada de ver a História (com "h" maiúsculo) rolar junto com a minha (com "h" minúsculo). É algo novo, pois desde que saí da minha adolescência e me dei por gente, podemos dizer assim, não havia presenciado uma grande e significativa mudança de patamar da linha da História. Tivemos o 11 de setembro, mas nada se compara e esse deslanchar de notícias até a pouco tempo insólitas dentro do sistema financeiro mundial.

Um modo de pensar o mundo está caindo por terra. Aliás, um modo de pensar reciclado, que já esteve governando o lado ocidental do mundo dos indos finais do século XVIII até 1930. O dito liberalismo econômico radical já esteve entre nós e naufragou, dando origem e consequência a duas guerras mundiais.

Ontem no mesmo jornal li uma entrevista bem interessante com o historiador inglês Tony Judt, dando um panorâma histórico do que estamos vivenciando. Ele falava justamente desse ponto de ligação da História da humanidade como um todo (a com "h" maiúsculo) com a dos indivíduos (a com "h" minúsculo), e como esse contato e simbiose interfere e dá rumo à nossa existência:

FOLHA - A crise global é parte de um "ciclo natural" de desaceleração econômica?
 
TONY JUDT - Não faço a menor ideia. Mas tendo a concordar com a crítica da economia neoclássica de [John Maynard] Keynes, segundo a qual os padrões econômicos resultam sempre da decisão de intervir ou não intervir. Estão, portanto, sujeitos a ações de governo não naturais de contraciclo. Prova disso é o grande salto econômico e a estabilidade que sucederam a Segunda Guerra Mundial [1939-45]. Ciclos econômicos longos estão relacionados à memória: enquanto as pessoas tinham em mente a Grande Depressão dos anos 30, elas continuaram acreditando em intervencionismo governamental como forma de garantir emprego e benefícios sociais e prevenir a volta das políticas extremistas que acompanharam a crise. Nos anos 80 e 90, a maioria das pessoas ligadas à autoridade política e econômica não tinha lembrança direta do que havia sido aquela crise e, por isso mesmo, nenhuma razão para preservar ou defender instituições políticas e sociais criadas para prevenir seu ressurgimento. É muito simbólico que a crise tenha ressuscitado agora, no rastro da onda de desregulamentação do sistema de comércio e investimento bancário da década de 90, 60 anos após o New Deal ter sido criado justamente para evitar o colapso que estamos vendo hoje.


Trocando em miúdos, enquanto a história em minúsculo daqueles que viveram os grandes colapsos econômicos do passado viviam e/ou influenciavam nas tomadas de decisões políticas (ou a História em maiúsculo), a cautela e o bom senso econômico ditavam as regras. O apagar-se dessas pequenas historinhas humanas foi mudando o rumo da História, nos levando a cometer os meus erros passados.

Enfim, definitivamente, errar é humano. Mas e cometer o mesmo erro duas vezes? Estamos criando mais um bode expiatório ou realmente não há saída?

4 comentários:

Garota no hall disse...

Ai, economia... me enrolo toda nesse tema. Prefiro não comentar para não escrever asneiras... hahaha.

Cecilia disse...

Vou concordar com a moça acima. Sou uma lástima para esse tipo de assunto. :P

Alexandre disse...

Que isso, não se avexem. :)

E eu escrevi bode expiatório com "s" e ninguém me fala nada. rs

Aline-NC disse...

Quem vai pensar nos erros do passado, quando está lá no topo de uma montanha de dinheiro? Agora, a queda vai ser bem feia...