segunda-feira, 20 de abril de 2009

grandes clássicos do "rock maconha"

Esses dois álbuns marcam algo como o início e o fim de um período onde uma certa "cena" do rock (se é que podemos chamar assim) brotou, floriu, e morreu. O que eu costumo chamar de "rock maconha". Foi meio que uma praga. Arrebatou várias bandas dos mais diversos estilos. E manchou, segundo diz boa parte da crítica especializada, a carreira de muita gente boa.

Algo como uma ressaca do dito "verão do amor" (1967) do fim dos anos 60. O povo que criou grandes pérolas pop com o uso de muito ácido, resolveu, em vez de virar careta, cair de cabeça em outro tipo de entorpecente. Eu não diria que foi um desastre como os entendidos apontam, mas muita bizarrice e esquisitice foi desenvolvida nesse tempo.


Atom Heart Mother - Pink Floyd (1970)


(a capa diz tudo não?)

O que acontece com uma banda que perde seu grande vetor criativo (Syd Barrett) em pleno fim dos anos 60? A resposta está nesse disco. Na verdade, a resposta já havia começado antes, no não menos "emaconhado" Ummagumma (1969), mas digamos que a completude se fez aqui.

Nessa época, o Floyd estava atirando pra todos os lados tentando estruturar uma direção sonora pra banda, que havia sido, sobre a liderança de Barrett, um dos grandes expoentes do movimento psicodélico de 1967. Juntemos à falta de direção o espírito cannabis sativa que estava impregnando o ar e temos um dos trabalhos mais sem pé nem cabeça que o rock and roll já produziu.

O álbum começa com a faixa-título. Uma "suíte" de mais de 20 minutos de duração, onde temos uma orquestra completamente desafinada tocando uma espécie de marchinha que se repete ad infinitum. No meio desse "refrão", surgem coisas como um relinchar de cavalo, uma moto arrancando a toda sei lá pra que onde, entre outras colagens sonoras totalmente aleatórias e sem sentido (pelo menos pra quem não "puxou um beck"). A música segue não menos bizarra com a entrada de um coral de vozes como se estivéssemos assistindo a um ensaio teatral de alguma ópera, seguido de um choroso e bluseiro solo de guitarra, e por aí vai. Na parte final da música, tudo se repete, com pequenas nuances que te deixam perplexo e sem entender pitomba nenhuma.

O disco segue com três canções que poderíamos chamar de normais, não fosse a infalível impressão de que, em cada uma delas, o respectivo autor sentou ao piano ou pegou o violão após ter tragado muita erva antes. E acaba em mais uma "suíte" instrumental que retrata uma espécie de café da manhã musicado (com direito a efeitos sonoros de caixas de fósforo e frigideiras ao fogo) de um tal de Alan, roadie da banda.

É um disco que acho que toda pessoa interessada em música pop deveria ouvir pra se ter uma noção de até onde se chega a "criatividade" humana dentro desse segmento artístico. Além disso, possui momento agradáveis, e é delicioso de se escutar naqueles esporádicos, "perdidos" e solitários fins de tarde de outono.

Interessante e curioso como a mesma banda que produziu essa bizarrice sonora tenha feito três anos mais tarde uma das maiores obras-primas de toda a história do rock/pop, o mítico Dark Side Of The Moon (1973).

Com a palavra, os autores:

"'What do you think of your early records like Atom Heart Mother and Ummagumma today?' I think both are pretty horrible. Well, the live disc of Ummagumma might be all right, but even that isn't recorded well." - David Gilmour - German news magazine "Der Spiegel" No. 23 - 5 June 1995

"Atom Heart Mother is a good case, I think, for being thrown into the dustbin and never listened to by anyone ever again! [...] It was pretty kind of pompous, it wasn't really about anything." - Roger Waters - Rock Over London Radio Station - 15 March 1985, for broadcast 7 April/14 April 1985.


Red Rose Speedway - Paul McCartney & Wings (1973)


(esse botão de rosa é muito suspeito..)

Já escrevi nesse blog criticando o álbum. Mas recentemente tenho escutado com mais freqüencia, e percebido que ele tem o seu valor. Não é dos discos diferenciados pós-Beatles do Macca, mas é um clássico. E mais, um clássico do "rock maconha".

Sir Paul McCartney estreiou em carreira solo com um trabalho que tem alguns traços da verve cannabis aqui comentada, o ótimo McCartney (1970), porém a consolidação mesmo só veio com esse petardo.

É sabido que o ponto fraco do ex-beatle sempre foi a parte lírica, mas aqui nesse trabalho ele deu uma apelada. Dos álbuns que ele lançou nos anos 70, esse com certeza é o que mais exala uma certa breguice e total esquisitice nas letras. Digamos que a cannabis aqui distorceu o já parco senso crítico do Macca pra elaborar as ditas. "My Love", apesar de ter uma bela melodia e ser uma singela homenagem a Linda, tem uma letra pra lá de brega, dispensando maiores comentários. Difícil é entender coisas como "Little Lamb Dragonfly" ou "Single Pigeon", ou a grande bizarrice "Loup (1st Indian on the Moon)" (?). Aliás, diria que essa música representa o fino trato do "rock maconha": um instrumental tosco sobre um suposto Neil Armstrong da nação indígena.

Tenho pra mim que no período de gravação desse trabalho o Macca passava a maior parte do tempo na horizontal com a Linda e puxando um fumo descontroladamente. Só isso explica esses 40 minutos de "nóia-brego-romântica".

De qualquer maneira, recomendo o petardo. É um disco que representa perfeitamente o lado mais otimista do climão de ressaca hippie do começo dos anos 70: se o sonho acabou, vamos pegar as migalhas, bater no liquidificador, "puxar um beck", e aproveitar. Enfim, "rock maconha" no seu estado mais purista.

Graças a um desses maravilhosos e misteriosos insights, Sir Paul parou pra pensar, controlou a erva, botou a carreira nos eixos e lançou alguns meses depois um de seus melhores trabalhos pós-beatles, o excelente Band On The Run (1973).

Um comentário:

Garota no hall disse...

Completamente por fora desses sons...