terça-feira, 7 de abril de 2009

Para onde vai a Folha de S. Paulo?

Já temos aí algo em torno de 15 anos de leitura quase diária do calhamaço do senhor Otavio Frias Filho. Credito boa parte do que eu sou hoje, em vários aspectos, à companhia desse jornal. Meu gosto pela leitura, pela redação, pela escrita, meu senso crítico. Enfim, eu formei minha personalidade e tudo que vem com ela tendo a Folha do meu lado, ali em cima da mesa, do sofá, na cama, ou no cesto de revistas.

Uma das coisas que me intriga no momento é saber o que se passa, que tipo de metamorfose ocorre dentro daquele prédio idoso da Alameda Barão de Limeira no centrão da capital paulista. Pois a Folha não é mais a mesma. Não digo na sua essência, mas no seu "modus operandi".

Nunca me enganei com a propaganda de pretensa imparcialidade jornalística do jornal. Ao contrário de outros jornalões como O Estadão e O Globo que sempre adotaram de forma clara uma certa posição ideológica, a Folha sempre se postou como uma espécie de bastião de imparcialidade dentro do jornalismo nacional.

Quem mergulha com um pouco mais de profundidade no mundo das notícias e as analisa com um certo senso crítico sabe que não existe imparcialidade nem neutralidade jornalística total. Em que pese toda a dinâmica do jornalismo girar em torno do que no Direito costumamos chamar de "verdade real", ela é uma pobre coitada que fica perdida em meio ao jogo de interpretações e argumentos, sem qualquer possibilidade de ser escancarada e desnudada por completo. Sempre foi assim, e sempre será.

Digo isso porque, independentemente dessa postura editorial enviesada de um certo ar de hipocrisia que o jornal sempre teve, a Folha nunca havia abandonado um trabalho plural e investigativo de primeira linha dentro do seu corpo de jornalistas. E coloco a locução verbal no passado porque os tempos realmente são outros.

Alguns críticos dizem que a Folha apenas está deixando "cair a máscara" e que esses "deslizes ideológicos" sempre ocorreram. Concordo até certo ponto. Mas eu não sei se é só isso. Acho que houve também, de alguns anos pra cá, uma queda de qualidade mesmo, proposital ou não, visando manter a sobrevida do jornal em tempos de vacas magras do jornalismo impresso. Procurando algo como uma "sectarização" e fidelização dos leitores. Algo aliás que talvez já tenho vindo tarde.

Só isso explica uma manchete de capa do último domingo do jornal, com uma longa reportagem interna:

"Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim".

Vale a pena dar uma lida no trabalho da jornalista Fernanda Odilla e comparar com a carta-resposta divulgada pelo entrevistado no dia seguinte à publicação da reportagem: resposta do jornalista e professor Antonio Roberto Espinosa, via Blog do Luis Carlos Azenha.

Vale também uma espiada na troca de e-mails feita no início dessa semana entre o entrevistado e um jornalista representante da Folha.

Sigo lendo matinal e diariamente (sempre que possível) a dita "Folha da Manhã", mas com um leve e incipiente desgosto cerebral. A Folha está ainda a milhões de léguas de distância de monstruosidades como a Revista Veja, obviamente. Mas é bom eles tomarem cuidado e instituirem uma pausa esporádica para reflexão. Pois a coisa começou a desandar. Pesemos o que vale mais: Um punhado de leitores fiéis ou um nome (ainda digno) a ser zelado?

3 comentários:

Rodrigo disse...

Comecei a ouvir comentários nesse sentido com relação à Folha já no ano passado. Eu continio lendo o Folha On Line, mas a pulga atrás da orelha já começa a se reproduzir...

Cecilia disse...

Venho lendo algumas coisas sobre isso e arre, fico bege. É cada uma...

Garota no hall disse...

Já comentei sobre uma professora minha que trabalhava na Folha Ilustrada, mas preferia ler a cobertura política do Estadão? Ela dizia que não gostava da forma como a Folha fazia esse tipo de cobertura.