domingo, 14 de junho de 2009

sobre o blog da Petrobrás

O assunto político da semana passada na blogosfera foi a polêmica sobre o recém lançado blog Fatos e Dados, da portentosa Petrobrás. Lá estava eu hoje de manhã, sentado na mesa da cozinha, com meu capuccino na mão esquerda, e a coluna de domingo do ombudsman da Folha na minha frente, ipsis litteris:

(...)

Ao longo da semana, a relação entre a Petrobras e o MBC foi deixada de lado (o que parece confirmar a sua pouca relevância) e o debate, injustificadamente histérico, se concentrou na criação do blog Fatos e Dados pela estatal.

A Petrobras e qualquer entidade ou cidadão têm o direito indiscutível de criar quantos blogs, sites, jornais ou publicações de qualquer espécie que quiserem. Se ela deseja tornar públicas todas as perguntas de jornalistas que receber, também não há nada que a impeça nem legal nem eticamente (em especial se deixar claro a quem se dirigir a ela que vai fazer isso).

Não faz sentido a Petrobras querer editar o conteúdo dos veículos de comunicação. Mas não há problema em ela tornar público material que seja cortado durante o processo de edição feito por esses veículos.

A reação de muitos jornalistas, veículos e entidades à iniciativa foi claramente despropositada. Se alguém pode sair prejudicado pela decisão de revelar as questões de jornalistas antes da publicação das reportagens a que se destinam é a própria empresa, como seu recuo nesse ponto deixou claro: se as pautas exclusivas deixam de ser exclusivas porque a fonte as revela ao público, o mais indicado para quem as produz é não ouvir essa fonte antes de publicar a reportagem.

(...)

Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombudsman da Folha de SP. "Muito barulho por quase nada". Coluna de 14/06/2009.

Concordo com cada linha. Confesso que fiquei surpreso com a reação da mídia, digamos, tradicional. Ver jornalistas do naipe do Kennedy Alencar da Folha indagando coisas como "Deu a louca na petrobrás?" foi triste. Isso só constata a divisão cada vez mais clara que existe no jornalismo atual. Entre aqueles que viraram a página e estão no século XXI e aqueles outros que permaneceram lá atrás.

Acabou-se o monopólio da informação, e claro, da interpretação desta. Observar esses espasmos reacionários de parte da mídia só demonstra o quanto ainda tem gente agarrado a um modo arcaico de enxergar e fazer o jornalismo.

Aproveito para parabenizar os bravos editores (que eu acredito serem jornalistas) do blog da empresa e deixo transcrito a postagem feita por eles lá, em referência ao texto do ombudsman da Folha:

(...)

A Petrobras concorda plenamente com o Ombudsman quando ele diz que “Não faz sentido a Petrobras querer editar os Veículos de Comunicação”. Reiteramos que este nunca foi e nem nunca será nosso propósito. A Companhia concorda que houve, como o próprio profissional faz questão de nomear, “um debate injustificadamente histérico” sobre o tema. E este debate levou à interpretação equivocada de que o objetivo da Petrobras seria editar o noticiário e intimidar os profissionais de imprensa.

Mais uma vez reforçamos que:

- O blog Fatos e Dados não expõe reportagens em curso, e nem poderia, pois desconhece inteiramente o conteúdo das pautas, a linha de abordagem, a totalidade das informações apuradas pelo veículo, entrevistados, entre outros fatores que compõe uma matéria jornalística.

- O jornalista, quando procura a Companhia, apenas envia as perguntas, sem revelar os detalhes da reportagem em curso. Portanto , as informações publicadas no blog Fatos e Dados se restringem aos questionamentos direcionados à empresa e as respostas enviadas por ela aos jornalistas.

(...)

Blog Fatos e Dados: "Ombudsman da Folha e o blog da Petrobras" - 14/06/2009.

4 comentários:

Rodrigo disse...

O buraco é muito mais embaixo. A Petrobras criou esse blog não porque quer democratizar a informação, mas sim porque está desesperada e precisava atacar a mídia - uma atitude claramente errada, pois empresa pública não deve atacar imprensa. E mais: esquece que a imprensa quem deve atacar, sempre! Claro, tem seu ponto ético e seu limiar, mas isso quem vai julgar é a justiça.

Tanto é que a empresa voltou atrás e vai publicar somente DEPOIS da matéria publicada. Então, pq voltaste atrás?

Aline-NC disse...

Isso tudo é medinho de não poder mais manipular a informação recebida antes de publicar no jornal? Acorda, gente...

Alexandre disse...

Rodrigo:

Não defendo a Petrobrás e seus eventuais problemas com ONGs e cia. ltda. (que podem existir e devem ser apurados), nem entro no mérito da conduta do blog (eu entendo que o sigilo no jornalismo se refere à fonte e não à informação em si, essa última é pública), mas sim o princípio que está por trás da criação do blog.

O que ficou claro pra mim é que houve uma "onda" reacionária na grande imprensa pelo simples fato da empresa estar prestando "contra-informação".

A informação é livre, esse é o grande ponto. O conteúdo informativo que a empresa presta pode ser usado pela mesma pra produzir sua versão.

Podemos discutir a ética de se publicar a informação antes dos veículos? Sim. Tanto que a empresa voltou atrás e aparentemente reconheceu isso. Só não vejo isso como "ataque", e sim como "defesa".

Se a imprensa pode "atacar" (produzindo matérias tendenciosas - sem muita ética mas de forma lícita) porque a empresa não pode se defender na mesma moeda (invertendo a tendência - sem muita ética mas de forma lícita)?

Não é o melhor dos mundos, muito pelo contrário, mas é um direito dela.

Sunflower disse...

A liberdade de imprensa é um dia de sol em Alcatraz.