quarta-feira, 11 de novembro de 2009

no escuro


Esse blog é escuro, e tem uma razão de ser. Para tentar enfrentar os limites dos nossos questionamentos existenciais é preciso encarar a escuridão.

Esse recente apagão elétrico que atingiu grande parte do país me fez refletir sobre isso, essa inquietude deveras desesperadora que atinge o ser humano quando ele se encontra no completo breu.

O noticiário televisivo beira uma certa histeria no transcorrer do dia de hoje tentando entender as causas de uma falha que é sabidamente possível em qualquer rede ou sistema complexo. E não acho que eventuais interesses políticos expliquem por si só tamanha "neura" camuflada no jornalismo. O buraco provavelmente é mais embaixo.

É só olhar pras pessoas que estão ao seu lado, ou seus vizinhos, todos guardam uma inquietude primal quando todas as luzes se apagam e a velha e boa chama de fogo volta a ser o único porto seguro.

Por experiência própria, eu sinto que quanto mais você procura entender e vivenciar a escuridão melhor você consegue enxergar, trabalhar, e amadurecer o próprio espírito. E penso que falta um pouco disso em nós como civilização: tentar vivenciar de uma forma mais plena a escuridão, e, por consequência, entendermos melhor o que nós somos e representamos diante do vazio.

Como fazer isso? Uma noite deitado na grama de um sítio interiorano (com todas as luzes apagadas), uma parada no acostamento da estrada vicinal (desligando os faróis), com uma não necessariamente longa pausa para observar o firmamento noturno. Essa é uma opção, mas existem várias. Pra muita gente, dormir num quarto totalmente escuro já seria um grande avanço.

Embora a humanidade tenha alcançado um gigantesco grau de conhecimento tecnológico e de engenharia de tal forma complexos e refinados, ainda não conseguimos lidar de forma serena com medos que estão incrustrados na simplicidade espiritual da natureza.

Um dos livros mais antigos e influentes da humanidade já dizia que no começo era o nada e a escuridão. E ninguém nunca deu muita bola pra isso. O "cool" só teria aparecido com o verbo e a ação, em forma de luz. Mas eu sou daqueles que acreditam que a maturidade repousa na não-ação e no silêncio. O dia em que olharmos pra esse lado da moeda com mais carinho e menos "cagaço", vislumbraremos melhoras sensíveis em nós mesmos na trajetória de uma certa caminhada aparentemente sem destino.

4 comentários:

Cecilia disse...

Rapaz, eu pensei o mesmo. Chegada num espiritualismo, a primeira coisa que pensei foi: "isso é um sinal, para todo mundo parar e analisar". Não adiantou muito, conforme vemos no jornal...

Luiz Carioca disse...

Muito bom, doeu na consciência.
Eu, que falo tanto em ecologia, tenho meu blog com background branco. Tá anotado, o próximo layout terá fundo preto. o mais rápido possível.
abs

Cristina disse...

Muito bonito o seu texto. :)
Acho que td mundo anda muito histérico, muito agitado pra parar e apreciar esse encontro consigo mesmos... aposto que pouquíssimas pessoas aproveitaram esse apagão pra refletir sobre alguma coisa; pelo contrário, só pra continuar reclamando de tudo, como sempre.

Garota no hall disse...

Que observação existencialista! Admito que no começo bateu um "pânico do desconhecido", uma vez que as causas e a dimensão do apagão ainda eram obscuras. E morar em SP num momento como esse só faz aumentar a neurose :-/